Aproveitando um artigo publicado na Vert #99 (abril 2010), que sofreu pequenas adaptações, fica então a conhecer um pouco da história do Pipe Masters.

HISTÓRIA

Pipeline é um nome que consta do dicionário de qualquer bodyboarder fervoroso. Este pico faz parte da nossa vida desde há muitos anos, contando-se imensos campeonatos e sessões memoráveis realizados naquele que é considerado um dos melhores spots do mundo para bodyboard. É, sem dúvida, parte integrante e indissociável da nossa história. Apelidada de Banzai Pipeline, nos anos 60 do século passado, esta onda é igualmente conhecida devido ao seu nível de exigência e por rolar por cima de um reef que já reclamou vítimas… literalmente!

Situado em Ehukai Beach Park, tem a particularidade de funcionar em quatro pontos distintos: Pipeline é a fantástica esquerda que quebra com fortes ondulações de oeste, Backdoor é a direita contígua a Pipeline e que funciona com swell de norte. Quando o oceano chega à costa havaiana em proporções dantescas, o segundo e terceiro reefs podem estar a quebrar a uns bons metros da costa.

Com o crescimento exponencial que o bodyboard tem vindo a sofrer um pouco por todo o planeta, Banzai Pipeline tem sido um dos destinos mais visitados pelos praticantes, principalmente na época que coincide com a etapa a contar para o mundial de bodyboard. Esta peregrinação de estrangeiros despoletou, ao longo dos anos, ferozes actos de repressão por parte dos locais face aos de fora (“haoles”). O localismo naquela zona atinge níveis escabrosos e muitos são os casos mediáticos de violência generalizada. Dave Winchester, Michael Novy e Cade Sharp são alguns dos riders mais conhecidos que sofreram na pele os efeitos da fúria havaiana, especialmente muito patente em grupos organizados de surfers locais prontos para a porrada. 

EVENTOS

O evento mais esperado do ano no circuito mundial de bodyboard é o Pipeline Pro (em 2016, Pipe Invitational). Durante muitos anos, este foi o local que marcava o término do ano competitivo e que, muitas vezes, servia para definir o novo campeão mundial. Mais recentemente, Pipe passou a abrir a temporada, mas a expectativa em torno deste espectáculo manteve-se intacta.

Este ano o campeonato celebra 34 anos de existência. Pelo meio deste percurso de três décadas, algumas foram as pedras que surgiram no caminho e que mudaram ligeiramente o rumo dos acontecimentos. Por exemplo, em 1985 o circuito mundial de bodyboard não se realizou e em 2004 o espectáculo foi movido para Maui. O ano passado também não houve evento. À entrada para o novo milénio, o Pipeline Pro esteve em vias de não se realizar por falta de um patrocinador principal. Porém, eis que o melhor surfista de todos os tempos daquele pico trata de resolver a situação, patrocinando ele, através da sua marca, a principal etapa do circuito mundial: Mike Stewart. Depois disto, o evento até ganhou outra proporção, surgindo uma conceituadíssima empresa de produção de jogos de consolas como principal financiador.

Nos dias que correm, e com todas as evoluções tecnológicas que se verificam a um ritmo desmesurado, a competição pode ser seguida via webcast, o que facilita e une os aficionados do bodyboard em torno deste ponto geográfico único no mundo e possibilita que todos sigamos o espectáculo que é o bodyboard em Pipeline. Apesar de alguns altos e baixos, Pipe continua firme e certamente manter-se-á por muitos e longos anos, continuando a figurar neste nosso mapa histórico. 

CAMPEÕES E OS PORTUGUESES

A estreia de Pipeline como campeonato de bodyboard foi no longínquo ano de 1982. Daniel Kaimi foi o primeiro vencedor, num evento que ficou marcado pela hegemonia havaiana: pelos menos os oito primeiros classificados residiam na ilha. À data, o vencedor levava para casa um prize-money de 1.500 dólares.

Com o passar dos anos começou a surgir uma figura incontornável no pico e no desporto. Venceu por 11 vezes o evento em Banzai Pipeline, um feito nunca antes conseguido. Mike Stewart afirmou-se como rei e senhor daquele reef break sendo que, como acima referido, é hoje internacionalmente reconhecido como o melhor surfista de sempre naquele spot. Não só levou imensas taças para casa, referentes ao bodyboard, como também conquistou outras tantas na categoria de bodysurf. O testemunho passou para as mãos de outro havaiano: Jeff Hubbard, o digno sucessor de Mike como rei do spot, contando já com quatro vitórias em eventos a contar para o mundial.

No caso dos estrangeiros, os brasileiros também se deram bem com Pipeline. Guilherme Tâmega venceu por duas vezes, mas o seu conterrâneo Paulo Barcellos também se mostrou disponível para levar o ceptro para terras brasileiras, como se verificou em 2008. Apesar de tudo, os aussies foram quem melhor conseguiu fazer frente aos havaianos na luta pelo título de Pipe.

A competição costuma ser um bom prenúncio para aqueles que a vencem. Por diversas vezes, o vencedor do evento em Pipe atingiu mesmo o topo do mundo e venceu o circuito mundial nesse mesmo ano. São alguns exemplos Damian King, que chegou a vencer em Pipeline duas vezes, Andre Botha – sagrou-se bicampeão mundial em dois anos seguidos, tendo vencido em Pipe nessas mesmas épocas – ou o eterno Mike Stewart.

Os portugueses também fazem questão de participar nesta festa que é o evento de Banzai. Gonçalo Faria foi o primeiro a constar no top 5 numa etapa no Havai. Foi em 1994, ano em que o Pipeline Pro registou o maior swell que alguma vez surgiu por altura da competição, que Ratinho atingiu o 5º lugar, façanha que repetiu em 1999. Paulinho também foi um dos portugueses que embarcou para o sonho havaiano e, em 1998, esteve bem perto: as meias-finais foram o máximo que atingiu, fixando-se num honroso 7º posto da tabela classificativa. Rui Ferreira é outro dos nomes que marcam a história dos portugueses em Pipe: foi 4º classificado em 2001 e obteve um memorável 3º lugar em 2003. Nos últimos anos é Hugo Pinheiro que melhor tem representado as cores nacionais no arquipélago do Pacífico. O sua melhor classificação foi um 4º lugar em 2008.

Analisando a história dos eventos femininos em Pipeline, Dora Gomes foi uma das tugas que mais vezes pisou aquele areal. Em 2000 ficou-se por um bom 7º lugar ao atingir as meias-finais, resultado igual ao do ano anterior, mas em todo o caso é Rita Pires que detém a melhor prestação com um fantástico 2º lugar conseguido em 2008. 

LISTA DE CAMPEÕES

1982 – Daniel Kaimi 

1983 – Mike Stewart 

1984 – Mike Stewart 

1985 – Não teve lugar

1986 – Ben Severson 

1987 – Mike Stewart 

1988 – Mike Stewart 

1989 – Mike Stewart 

1990 – Mike Stewart 

1991 – Mike Stewart 

1992 – Mike Stewart 

1993 – Michael “Eppo” Epplestun 

1994 – Guilherme Tâmega 

1995 – Mike Stewart

1996 – Mike Stewart

1997 – Steve “Bullet” Mackenzie

1998 – Mike Stewart

1999 – Andre Botha 

2000 – Andre Botha

2001 – Andrew Lester

2002 – Guilherme Tâmega

2003 – Jeff Hubbard

2004 – Damian King

2005 – Não teve lugar em Pipe; prova foi disputada em Honolua Bay

2006 – Damian King

2007 – Jeff Hubbard

2008 – Paulo Barcellos

2009 – Ryan Hardy

2010 – Amaury Lavernhe

2011 – Jeff Hubbard

2012 – Jeff Hubbard

2013 – Ben Player

2014 – Ben Player

2015 – Não teve lugar

2016 – Pierre-Louis Costes

2017 – Jeff Hubbard


Fotografia: Sacha Specker/IBA

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