É um dos cofundadores da primeira revista de bodyboard portuguesa e tem sido o timoneiro da Vert Magazine há quase três décadas. Considerado um dos pioneiros originais do desporto, aproveitou o último confinamento para finalmente tirar da gaveta um projeto antigo – a ideia de um livro inteiramente dedicado à génese do bodyboard em Portugal e no Mundo. Algo que “deu pano para mangas”, segundo nos contou. Eis a entrevista possível com António Fonseca, o autor de algo que promete ficar na História do bodyboard.

Por Ricardo Miguel Vieira

O que é o triBBo? Como descreves este livro?

É um projeto sobre a tribo do bodyboard – com dois B’s maiúsculos, porque desde que me lembro servem para abreviar a palavra bodyboard. É um livro que fala da génese. De onde vem o desporto e o caminho que percorreu. É algo que relata episódios históricos e competições, e que enaltece feitos e recorda os pioneiros – em Portugal e no Mundo. E isto sem nunca esquecer, claro, o lado divertido e toda a versatilidade da pequena prancha que mudou a vida de milhões de pessoas. Para uma pessoa que nunca acompanhou a atualidade, mas que gosta verdadeiramente deste desporto, pode pegar neste livro e aprender um pouco mais sobre as raízes e os primeiros tempos de algo que lhe diz tanto. E pode passá-lo a gerações futuras. O seu conteúdo é intemporal.

Conta-nos um pouco de onde surgiu a ideia para este livro e quanto tempo trabalhaste nele.

Eu já tinha esta ideia há muitos anos. Quando se está dentro de um movimento tanto tempo e se vive de forma intensa e apaixonada um desporto como o bodyboard, ainda mais tendo acompanhado de perto praticamente todos os eventos e a sua própria evolução, chega uma altura em que queremos contribuir com algo mais. Até porque o tempo passa e não vamos ficando mais novos. É altura de dar crédito a todos os que fundaram este desporto – que são a grande inspiração neste trabalho.

Com o decretar do último confinamento, a meados de janeiro, decidi que era chegado o momento e retirei finalmente o projeto da gaveta. Na altura só tinha o esqueleto da coisa delineado, na verdade nunca tinha investido muito a desenvolvê-lo, mas assumi de vez o compromisso e rendi-me à escrita. Foram horas e horas despendidas a confirmar dados e factos, por vezes dias inteiros a escrever – porque há que aproveitar quando a coisa flui. Só mais tarde, com praticamente os textos finalizados, mergulhei a sério na seleção de imagem. Embora, diga-se, esta tenha acontecido de forma natural ao longo de todo o processo.

Da minha parte terminei em maio e depois passei a pasta para o design. Portanto, foram sensivelmente quatro meses dedicados à produção do livro e do crowdfunding – outra coisa que não se faz de um dia para o outro.

E o que te motivou a editá-lo neste momento, no seguimento de um ano atípico para todos nós, inclusivamente para o universo do bodyboard?

Eu penso que foi o aproveitar de uma oportunidade que não sabemos se voltaremos a ter. Falo do confinamento e de, no meu caso, ter entrado em regime de teletrabalho, o que permitiu uma gestão mais eficiente do tempo. Não é que eu tivesse alguma vez pensado em fazer isto nesta altura, até podia ter investido noutra coisa qualquer, mas a verdade é que desde o primeiro confinamento que fiquei com a pulga atrás da orelha. E assim que o último Estado de Emergência foi confirmado, não hesitei, tirei a pasta da gaveta e pus mãos à obra! Assumi o desafio, mas depois foi uma espécie de luta contra o tempo…

Pelo que sei, o livro inclui memórias pessoais do teu percurso e envolvimento com o desporto ao longo dos anos. Por que razão decidiste dar um cunho autobiográfico a algumas das histórias que nele relatas?

O livro tem 200 páginas e praticamente a mesma quantidade de fotos. Texto de uma ponta à outra. São 32 capítulos independentes, mas que seguem uma ordem minimamente lógica – pelo menos para mim. É verdade que alguns textos, não muitos, prendem-se efetivamente com experiências e episódios pessoais, mas apenas porque a veia criativa foi fluindo nesse sentido. Há uma coisa que eu não escondo, esses primeiros anos do bodyboard foram absolutamente incríveis e são irrepetíveis. Para mim foram os melhores de sempre.

Como é que gostarias que este livro fosse acolhido pelos bodyboarders? Que expectativas tens sobre o lugar deste livro na história do desporto?

Gostava que fosse apenas bem acolhido. Que tivesse aceitação e que o considerassem uma peça fundamental no entendimento do passado e presente do desporto. No início faço uma ressalva que é importante recordar ao longo da leitura, que é o facto de ter sido escrito sob a minha perspetiva. Obviamente, outros terão a sua. Eu não vou discordar. Porém, estou cá desde o início e muito do que é relatado tive a felicidade e o prazer de testemunhar com os meus olhos. É um património que fica para o bodyboard. Para mim é uma honra fazer parte.

A edição do livro será feita através de uma campanha de crowdfunding. O que te levou a criar e, no fundo, editar um livro de forma independente e por via de apoios do público?

Pelo conteúdo que este oferece quis fazê-lo de forma absolutamente independente. Isto é uma coisa muito pura. Não há parte comercial envolvida, apenas pessoas. Eu agarrei o desafio e estive alguns meses a desenvolvê-lo. Agora, para ver a luz do dia, cabe à comunidade, aos bodyboarders, fazer a sua parte que é viabilizar a sua produção – contribuindo da forma que puderem, nem que seja com uma simples partilha do link da campanha para dar a conhecer o projeto a mais gente.

Quando é que a campanha será lançada? Algum pormenor que possas desvendar por agora?

Eu sei que me atrasei um pouco a dar as respostas a esta entrevista e peço desculpa por isso, mas o crowdfunding iniciou ontem e está disponível neste link: https://ppl.pt/tribbo (que vos convido a partilhar). A campanha termina no final do mês e vale a pena sublinhar que todos os apoiantes terão o nome impresso no livro. Ou seja, eu posso ser o autor, mas o público é o grande investidor e desta forma ficará para sempre ligado à obra. Além disso, estou ainda a tentar que todos os livros sejam numerados, mediante ordem de adesão ao crowdfunding, algo que confere a triBBo um carácter ainda mais único e exclusivo.  xxx


Foto no topo: ©André Resende ‘Rezinga’
Foto tubo: ©João Maya
Foto drop: ©Nuno Cerveira