A última etapa do Circuito de Bodyboard Miramar, no sábado, 21 de fevereiro, foi um grande dia de bodyboard, de encontro entre gerações e emoções fortes. Esta é uma crónica sobre aquilo que se viu e ouviu. Essencialmente, de partilha.


Texto por Francisco Henriques

Nos últimos dias, a Costa de Caparica tem sido falada nas notícias, não pelas melhores razões. As derrocadas na arriba fóssil e o desalojamento de muitos moradores, depois de semanas de chuva intensa, causaram consternação geral. As praias foram poupadas, pelo menos junto à vila. Sábado prometia ser um dia diferente, pois o Sol voltava radiante. O vento soprava brando de Nordeste e o swell de Oeste ultrapassava os 19 segundos de período e dois metros de altura.

Era o dia certo para a última etapa do Circuito Miramar de Bodyboard 2025, depois de sucessivos adiamentos no final do ano devido às condições impróprias do mar e da meteorologia.

A chamada incluía as divisões Open, Sub-14, Sub-18, Masters (+35) e ainda a tribo do Dropknee. Às 7h00, já a tenda estava de pé e o mar dava um ar da sua graça, mas um pouco aquém das previsões. Com a maré a vazar, viam-se agueiros por toda a Praia do CDS. Lá fora, a uns bons 300 metros da praia, um banco de areia anunciava os sets e retirava alguma força ao mar junto à costa… Já voltaremos a esse banco de areia.

Batem as 8h00 e os atletas do primeiro heat escolhem com naturalidade a esquerda que partia ao lado do pontão, a sul da praia, e que prometia ficar mais seca até à hora de almoço.

Começámos a ver Rollos, bellys normais e invertidos e os primeiros chapelinhos. Na divisão Open via-se já um dos pontos altos do dia: miúdos de 14, 15 anos a competirem com quarentões que não desistem. Havia até um pai e filho a competirem – a família Moleiro.

Com marés altas e a vazar, na ressaca das tempestades, os agueiros eram uma certeza. Na praia do Paraíso, ali ao lado, Pierre-Louis Costes entrou no free surf e foi visto a remar lá fora contra a corrente. Não eram necessárias mais provas. Os bodyboarders perceberam e estiveram exemplares – aproveitavam a corrente junto ao pontão para entrarem e a meio do canal remavam para norte e estacionavam mesmo em baixo do pico. Mais vale um set na cabeça do que um agueiro no final do heat.

A meio da manhã, o primeiro registo dramático. A uns 500 metros da praia, por detrás do banco de areia, estavam dois surfistas assustados, já com pranchas no ar a fazerem sinais para terra. Situação de resgate. Por sorte – ou por planeamento, responsabilidade e serviço público – andava por perto uma embarcação da Marinha que lá salvou os quase náufragos.

O comentador do campeonato chamava a atenção para o óbvio: sol e moda não eram sinónimo de segurança e o mar não estava para brincadeiras, exigia experiência. No pico da competição, cinco surfistas invadiram involuntariamente a zona de competição, mais um nadador-salvador a braços, de tronco nu, a tentar tirá-los de lá… enquanto os guerreiros de licra continuavam à procura do melhor score ou de um backup. Tudo isto era um prelúdio daquilo que estava para chegar com a mudança da maré.

Importa falar brevemente sobre os atletas. Além da amplitude de idades, a maioria era proveniente da zona de Lisboa. Mas com exceções. Do norte (Espinho e Póvoa) vieram jovens com um surf incrível e uma atitude fora de água ainda mais notável. Da Zambujeira do Mar veio André Gonçalinho, a espalhar charme nas esquerdas com um surf muito jovem. De Marrocos veio Achraf El Ghazi. Não foi difícil perceber o potencial do atleta marroquino: nas redes sociais, um vídeo demonstra o Achraf a dar treze 360’s numa só onda. O mérito não será só das longas ondas marroquinas. No fundo, nada disto nos deve surpreender. Já na etapa anterior, o vencedor da divisão open foi o sul-africano Reece Mason, do mesmo país que os campeões mundiais Tristan Roberts, Jared Houston e Andre Botha. Este é também um circuito internacional a atrair quem está de passagem por Portugal.

Na final Masters, Manuel Henriques abriu o heat com um El Rollo sólido na junção, seguido de Fábio Ferreira (que há uns anos andou a lutar pelo título nacional) a iniciar as combinações de manobras muito fortes no lip. Seria o heat mais competitivo e talvez com a média de notas mais alta. Nuno Paixão, líder do ranking, com uma leitura exímia do mar, responde ao mesmo nível e, já avançada a bateria, faz uma onda bonita: dropa lá fora um pequeno wedge, atrasa o que pode, a onda começa a encaixar no inside e, quando menos se espera, abre um tubo, atravessado pelo Paixão, a finalizar com um bom Rollo na junção. Porém, foi David Rafachinho que levou a melhor – ele que andava lá fora a puxar Inverts e, ao contrário de outros atletas, estava muito tranquilo, imune ao agueiro que o arrastara de manhã para o outside. Com a contraluz a aumentar tornava-se difícil distinguir os vultos na água. Foi um bom tubo que selou a vitória nos Masters.

Seguia-se a final de Dropknee: a tribo da tribo. Em teoria, as condições eram favoráveis a David Rafachinho, que vai de frontside para a esquerda – cada vez maior, insuflada pela maré, e caprichosa, a meter já algum backwash. Juntavam-se Francisco Martins, também muito consistente, e Miguel Rocha, justo vencedor da primeira etapa. Em competição não há favas contadas e um dos grandes fascínios é que quase tudo pode acontecer. Francisco Martins ainda encontrou umas direitas que pareciam chegar diretas do Mar da Calha. Miguel Rocha apanhou uma direita para aquecer. Depois esperou. Sabe esperar como quase ninguém. Numa esquerda pesada, dropou de backside, bottom-turn limpo, roundhouse cutback na parede, ao que desce para um inside bowl e fica à sombra no interior da praia. Controlo, estilo e precisão numa performance ao nível dos melhores do mundo neste estilo do bodyboard.

A temperatura subia, e de que maneira. No paredão acumulavam-se várias centenas de pessoas. Corpos desfilavam lentamente com o sol a queimar. Uma “raposa do mar”, inquieto, perguntava: como é que vocês lidam com isto? Com muita paciência e alguns suspiros. Voltemos à ação. Com todo o respeito por outros desportos, aqui o campo não é sempre o mesmo. Além das pernas e da cabeça, é preciso ter sorte, leitura de mar e ser criativo quando é possível ser criativo.

Para ser franco, não me recordo do nome de todos os finalistas Sub-18 e Sub-14, mas sei que vamos ouvir falar deles. Entraram com as condições mais exigentes do dia, com o mar a galgar o pontão e a partir o leash a pelo menos três atletas. Durante a final Open houve um momento emocionante: um atleta Sub-14 que tinha ficado sem prancha foi “rebocado” por um atleta Open até estar em segurança, e foi recebido no paredão com uma ovação pela sua calma e coragem. Tivemos de esperar pela última hora do Sol para sabermos que os protagonistas do dia eram os mais novos. Até porque na final Open, com desempenhos fortes de André Hilário, André Gonçalinho e Achraf El Ghazi (que saiu lesionado), foi Fabinho Maganinho (Sub-18) que levou a melhor com um grande El Rollo.

Nota ainda para a última onda de Gonçalinho dez segundos depois de soar a buzina: um tubo grande para a esquerda a finalizar com um reverse aéreo (quase finalizado). Quem viu não esquece.

O speaker, Palex Ferreira, animado com o espetáculo e a multidão, lembrava que a Costa sempre foi terra de campeões de bodyboard. Ao mesmo tempo, Rodrigo Bessone ajudava a virar a placa de madeira pintada a vermelho que assinala os últimos cinco minutos de cada heat. Lembrei-me das palavras de Mike Stewart que, já sexagenário, venceu o mítico campeonato de Shark Island, na Austrália, e disse: “Nunca desistam de quem não desiste”.

A entrega de prémios foi como uma derradeira final. Destaco três momentos. Em primeiro, os vencedores Sub-14 e Sub-18 que, no alto do pódio, agradeceram aos pais sem os quais não poderiam estar presentes. É verdade. Os pais estavam de parabéns porque viram os filhos enfrentarem um mar grande, com muita energia, leashes partidos, agueiros… e aguentaram, aguentaram sentados em banquinhos de praia ou simplesmente em pé, estacados no paredão. Em segundo, David Rafachinho usou da palavra de campeão para uma homenagem sentida a dois irmãos do mar da Caparica, o Manarte e o Pedro Carvalho. Finalmente, Miguel Rocha, entre falhas de som, dirigiu palavras elogiosas à Century 21, patrocinador oficial do evento. Será caridade pelo bodyboard? A mim parece-me visão e boa estratégia. Quantas empresas locais conseguem chegar a milhares de potenciais clientes num sábado à tarde de sol no paredão da Costa?

Parabéns à Miramar e a toda a organização!
E até à próxima!

Vencedores do circuito:

Sub-14 – Salvador Moleiro
Sub-18 – Salvador Moleiro
Open – David Rafachinho
Masters – Nuno Paixão
Dropknee – Miguel Rocha


Fotos de David Rafachinho, Vasco Moleiro & Francisco Henriques