As descrições são infinitas e aparecem vindas de todos os sítios onde o Bodyboard, mesmo que apenas por uma só vez, já ergueu o estandarte da felicidade. As ondas, as viagens, os amigos, a partilha do momento – dos segundos que dura o deslize, os gritos elétricos da primeira manobra ou o ofegar do primeiro tubo. Solitários e acompanhados construímos o nosso percurso pelas marés e aprendemos de imediato que há qualquer coisa nisto tudo que nunca nos abandonará. 

Desde sempre que o Homem tentou traduzir em palavras as suas passagens pelos mistérios do mar. Os ventos, as correntes e, em tantos casos, os monstros que traziam às navegações as tormentas e o medo. As histórias ampliadas pelo tempo e pelo (re)visitar da lembrança humana tornaram-se lendas, motivos de crenças e inscreveram-se no imaginário das pessoas como uma reconstrução do real. Viagens reais transformadas em passeios pelas criações imateriais da cabeça de cada um.

Atrevo-me a dizer que nesta história infinita do Homem no mar fomos e seremos todos guiados pelo sonho. O sonho das ondas, o sonho da imensidão do oceano, da vulnerabilidade da nossa condição perante o mar. A excitação disto tudo e a nossa imaginação a transportar para nós as imagens da primeira vez em que vimos alguém deslizar numa onda. O sonho do primeiro tubo repetido na nossa cabeça a cada segundo da nossa existência, e o sonho que construímos quando assistimos do canal, a meio de um mergulho ou já a subir a falésia de regresso a terra seca, algum dos nossos irmãos cruzar-se por dentro da vitrine do segundos eternos.

Meus amigos, o sonho, no Bodyboard, é sempre a primeira opção. Quando nos deitamos na prancha e começamos a remar, aí, é o momento em que nos debatemos com a nossa realidade.


Texto: João Candeias | Fotografia: James Kaeka/OTF Visions