Simão Monteiro prepara-se para lançar “Lost Files” dentro de alguns dias. Trata-se de um novo clipe que junta algumas imagens que estavam esquecidas no disco duro do seu computador. Aproveitando a ocasião, lançámos-lhe algumas questões para saber um pouco mais sobre o projeto em si e também do que tem andado a fazer. 


Antes de mais, fala-nos um pouco do teu background como bodyboarder. Onde começou? Como? E quem te influenciou?

Comecei a fazer bodyboard numas férias de verão na Zambujeira do Mar e foi desde aí, com a influência da minha irmã e do meu pai que também praticam, que se formou esta paixão. A minha família foi sempre muito ligada ao mar e os meus pais sempre fizeram os possíveis para que eu e a minha irmã criássemos essa ligação, também porque o mar e o desporto em si são super saudáveis e é um momento onde estamos em sintonia com a natureza e connosco próprios.

Pessoas como o Bernardo Abreu, Paulinho Costa, Zsolt Lorincz, João Imaginário, Paulo Dias, Cisco Monteiro, entre outros, foram grandes influências no meu desenvolvimento, tanto a nível técnico como a nível pessoal, trouxeram-me valores e ensinaram-me o mais importante que é divertir-me e superar-me. Os meus amigos com quem surfo regularmente são os que me dão a maior pica e são super importantes para mim, porque é com eles que eu evoluo e tenho aprendido mais ultimamente. Tenho a sorte de serem bodyboarders muito talentosos e de chorar a rir sempre que estou com eles.

A minha família foi sempre muito ligada ao mar 

E como se processa essa recente viagem para a Austrália? Qual o objetivo de uma estadia tão prolongada?

Desde que os meus pais me ofereceram o filme “The Road”, com 12 anos, ganhei instantaneamente uma paixão pela Austrália. É lá que se encontram das melhores ondas do mundo e dos melhores riders, sem dúvida alguma.

O desejo de explorar e surfar ondas míticas, lugares lindos que só via em filmes, era gigante. E poder fazer isso com amigos seria a melhor coisa do mundo. Então eu fui em busca desse sonho. Poder ver amigos meus como o Bó, Serrão, Fred, Zé, Daniel, Yot, entre outros, a fazer isso antes de mim, ajudou-me a ganhar mais confiança. Só não sabia que iria ter que esperar tantos anos. (risos)

Primeiro decidi cumprir com as minhas responsabilidades escolares e acabar o meu curso universitário, para então ter total liberdade e apoio dos meus pais para seguir essa aventura, sem deixar nada para trás. Decidi que se iria viajar para tão longe, era para ser uma aventura grande e queria aproveitar para explorar aquele lado do mundo. O meu maior foco foi evoluir no bodyboard, surfar as ondas da minha vida e desenvolver-me pessoalmente e fazer o meu trabalho interior. O facto de vivermos muito tempo no mesmo sítio, com as mesmas pessoas, os mesmos hábitos, as mesmas ondas, as mesmas rotinas, muitas vezes criam um sentimento de estagnação e parece que estamos numa fila para a vida que todos esperam que tenhas: normal. E isso por vezes afasta-nos do nosso caminho, que só nós podemos percorrer e que é tão especial e precioso para cada um de nós. Eu comecei a perceber que ficar era perigoso, daí que decidi arriscar e avançar. E acreditem que não foi nada fácil e tive momentos lixados, mas a recompensa foi gigante!

Como correu e que ondas apanhaste?

Foi uma aventura cheia de altos e baixos com muitas histórias e reviravoltas pelo meio, onde conheci pessoas fantásticas, tive muitas aventuras e fiz muitas trips para lugares lindos com altas ondas e amigos, sempre rodeado de natureza e em contacto com um tipo de vida selvagem riquíssima, muito difícil de encontrar na Europa. Tive experiências de trabalho super variadas que me deram muita bagagem profissional, passei tempo sozinho, que permitiu conhecer-me melhor e puxar por mim em várias áreas, pois eu era a única pessoa de quem dependia, e isso trouxe-me muita experiência e conhecimento como ser humano. Aprendi a saber ser feliz comigo e com aquilo que tenho no presente. A ser mais grato. No fundo, senti que cumpri com os meus objetivos de melhorar o meu surf e aproximar me mais da pessoa que ambiciono ser. Foi uma experiência com direito a tudo e cheio de crescimento!

Penso que os melhores sítios foram Margaret River, South Australia e South Coast (New South Wales), todos repletos de ondas incríveis. Talvez as que tenha curtido mais foi Mitchells Wedge, o deserto da South Australia que está cheio de reefs de classe mundial, e depois surfar Nuggan e Aussie pipe que são ondas perfeitas esculpidas para bodyboard, com rampas de sonho. parecem desenhadas à mão. Além disto, depois existe a natureza sempre presente, é normal surfar com golfinhos, ver cangurus, pássaros exóticos e uma floresta e vegetação com uma presença intensa. Um paraíso! Mal posso esperar por voltar. Como fiquei algum tempo ainda deu para fazer duas temporadas (dois meses em 2018 e outros dois em 2019) na Indonésia, que fica perto da Austrália, mas uma cultura super diferente e com as ondas que todos sabemos. Foi um extra e uma aventura incrível.

É impressionante a consistência de boas ondas em Portugal

De regresso a casa, como está a correr a temporada?

O voltar está a ser incrível. Portugal recebeu-me com muito boas ondas, boas temperaturas e este inverno até esta última semana tem sido non-stop. É impressionante a consistência de boas ondas em Portugal, isto se pudermos, tivermos disponibilidade e dinheiro para fazer uns quilómetros extra. Numa semana normalmente temos sempre pelo menos dois ou três dias que vão dar altas ondas em algum lado do país que, quando comparando com a Austrália, apresenta distâncias mais curtas e fazer umas horas de carro é tranquilo, apesar do nosso sistema de portagens fazer uma espécie de pequeno assalto à carteira. Porém, estou muito contente e a aproveitar Portugal como nunca e com outros olhos. Outra coisa que tenho reparado é que tem havido mais respeito e bom ambiente em vários spots mediáticos e talvez conhecidos pelo contrário, o que é ótimo!

Fala-nos do teu novo filme… 

O clipe que estou prestes a lançar é uma compilação de filmagens com alguns anos que ficaram perdidas em computadores e drives. Decidi agarrar algumas das melhores e honrar os velhos tempos que passei antes de arrancar para a Austrália. As imagens são praticamente todas em Portugal, um pouco de norte a sul do país e representam uma versão antiga do meu surf, editado pelo Steven Gillon que foi um grande parceiro neste projeto. 

Uma das partes da minha preparação vai ser investir mais na minha imagem

Sabemos que há mais a caminho. Pretendes fazer lançamentos de clipes de forma mais regular?

A decisão de lançar este clipe faz também parte de uma ideia de mostrar o meu surf antigo e atual. Um segundo vídeo já está em processo de construção e vai mostrar aquilo que andei a surfar nestes últimos dois anos, com ondas na Austrália, Indonésia e também Portugal. Mal posso esperar para vos mostrar!

Última questão. Que objetivos a curto prazo?

Quero muito continuar a viajar e a evoluir, surfar novas ondas e conhecer novas culturas. É o que me move. Ainda não sei bem o que vai acontecer ao tour mundial este ano, mas estou a preparar bases para poder viajar para a América do Sul e se tudo fluir, fazer o mundial de bodyboard e representar Portugal o melhor que conseguir! Uma das partes da minha preparação vai ser investir mais na minha imagem, daí que podem esperar mais de mim a esse nível.Obrigado pela oportunidade e pela conversa. Boas ondas! xxx

* Vê mais sobre as aventuras na Austrália aqui e aqui

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