Texto_ Hugo Rocha Pereira

Daniel Fonseca é um dos melhores bodyboarders portugueses da atualidade. No nacional de bodyboard realizado na Ericeira, no final de agosto, o atleta manteve-se na liderança do ranking, tendo a conquista do título como um dos objetivos prioritários para a corrente temporada. Na véspera de começar a sua participação no Sintra Portugal Pro, etapa do circuito mundial na Praia Grande, aproveitamos para revelar uma conversa intimista com um guerreiro das ondas que reúne talento e humildade em generosas porções: competição, ondas, viagens e família são os principais tópicos.

Resume o campeonato na Ericeira, principalmente o último dia de prova, que proporcionou altas ondas.

Fui para este campeonato com imensa vontade de ganhar, pois sabia que a etapa era decisiva para agarrar o título. Desde terça-feira que andava a surfar no sítio da prova, independentemente das condições. A praia da Empa é brutal para bodyboard, mas também muito desafiante, pois com as marés grandes que tivemos naquele fim de semana as condições mudavam muito rapidamente e decidir por qual pico optar (Reef ou Pedra Branca) foi sempre uma fonte de stress. No último dia o mar estava lindo, metro a metro e meio glass. Passei em primeiro as baterias dos quartos e meias finais com notas fortes. Na final a maré estava perfeita para o Reef, arranquei rapidamente no heat com uma nota média e, assim que cheguei, ao pico apanhei uma segunda onda perfeita onde mandei um backflip e um rollo, acabando por valer uma nota de 9,25. Debaixo da prioridade de Dino Carmo arranquei numa onda que mais parecia um close out, mas acabou por abrir um tubo gigante de onde saí com um rollo na boca caindo novamente dentro do tubo e de onde voltei a sair mesmo perto das pedras, já com o braço no ar num “claim” totalmente excitado, pois já sabia que a nota tinha de sair perfeita, um 10 pontos, e assim foi. A partir daí foi aproveitar a sessão de ondas clássicas, consegui ainda somar mais 9,35 às contas finais.

Qual foi a tua estratégia?

Passou por escolher o pico com mais potencial, apanhar ondas boas e fazer manobras fortes. E, claro, divertir-me ao máximo.

“Quero ser campeão nacional, fazer os mundiais em Portugal e, dependendo do calendário da faculdade, ir ao mundial das Canárias”

A tua relação com as ondas da Ericeira já vem de trás…

Eu sempre gostei muito da Ericeira, as primeiras vezes que fui lá surfar foram com os meus pais a acompanhar o meu irmão nos campeonatos em Ribeira d’Ilhas. Durante o campeonato agarrava no material e subia a escadaria toda e ia a andar até ao reef. Adorava aquela caminhada, ficava cheio de pica quando via o reef a partir ao longe, surfava até não aguentar mais e depois voltava novamente a Ribeira a sentir-me mesmo feliz. A Ericeira corre-me um pouco no sangue também, pois tenho familiares de lá.

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Esta vitória deixa-te no topo do ranking. O título nacional está quase?

O título está cada vez mais perto, mas ainda não é garantido, tenho de continuar a lutar. E no fim serão feitas as contas. Quero manter o ritmo para as provas que se avizinham, tanto nacionais como mundiais e europeus.

Quais sāo os teus planos para o que resta deste ano, em termos competitivos e nāo só?

Em termos competitivos quero ser campeão nacional, fazer os mundiais em Portugal e, dependendo do calendário da faculdade, ir ao mundial das Canárias. Quero também fazer o resto das etapas do europeu. Tenho também dois filmes para lançar (Portugal e Irlanda) e gostava de fazer mais uma viagem para um destino na Europa.

>> Vê aqui o filme da Irlanda: Irish Dreams

Tens conseguido viver do Bodyboard?

Este é o primeiro ano em que estou a conseguir realmente ganhar dinheiro com o Bodyboard, o que é bastante motivador. Mas mesmo assim acho que não tem sido possível viver deste desporto. Tenho muita vontade de fazer o mundial, mas em primeiro lugar quero acabar o meu Mestrado em Engenharia Civil. Se para o ano as datas do Mundial não colidirem com o meu calendário da faculdade, estarei certamente a competir em todas as etapas importantes.

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Fala-nos do teu clipe apresentado recentemente (VISA 462) e de como correu a estreia.

O clipe conta com as melhores imagens de ação recolhidas durante a minha viagem de oito meses à volta da Austrália. A minha namorada, Sofia Oliveira, captou as imagens e o António Saraiva fez a edição. A estreia aconteceu na Alla Prima Lisboa, um estúdio de tatuagens de um amigo meu. Contou não só com a apresentação do filme mas também com uma exposição de fotos da Austrália e um showroom da Deeply. Fiquei muito contente com a adesão da comunidade e com o impacto que teve.

>> Vê aqui o filme da Austrália: VISA 462

Conta-nos mais sobre a aussie trip que gerou a matéria-prima para este vídeo.

Em janeiro de 2016, eu e a minha namorada chegámos à Austrália com o visto 462 – Work and Holiday. Trabalhámos em Sidney durante três meses e depois passámos quatro meses a viajar numa carrinha por toda a Austrália. Fomos da costa este à oeste, fizemos 24 mil quilómetros, conhecemos pessoas incríveis e ainda competi no circuito nacional australiano… Surfei das melhores ondas da minha vida, em zonas urbanas, de floresta e até mesmo desérticas.

O teu irmão Guilherme também se destaca nas ondas, mas no surf. Como é a vossa relação dentro de água?

Surfo com o meu irmão desde os 10 anos, fizemos as nossas primeiras surf trips juntos e partilhamos frequentemente sessões clássicas, principalmente em Supertubos. Ocasionalmente treino com o Guilherme e com o seu personal trainer, Luís Vazão, eles têm um grande ritmo de treino e por vezes sofro um bocado, mas adoro treinar com eles. Em suma, a diferença no desporto pouco influencia a nossa relação.

“Este é o primeiro ano em que estou a conseguir realmente ganhar dinheiro com o Bodyboard, o que é bastante motivador”


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