O sonho existe, mas é preciso conhecer o caminho.

De uma forma geral, todos nós vimos a estreia do surf e do skate nos Jogos Olímpicos de Tóquio. A espera foi longa, mas acabou por se concretizar em julho deste ano. 

Pouco tempo depois surgiram as primeiras reações da comunidade, nomeadamente, de Pierre-Louis Costes que com toda a legitimidade, ou não fosse ele 2x campeão mundial (2011, 2016) e reconhecido por muitos como o melhor bodyboarder da atualidade, também procura ver o bodyboard em tão emblemático e marcante palco internacional. 

Sabendo que as próximas Olimpíadas vão ter lugar em França (Paris 2024) e o Taiti receberá a competição de surf, um palco que diz muito ao bodyboard e onde foram quebradas imensas barreiras em prol da evolução, a inclusão do nosso desporto parece ser em tudo lógica. 

No entanto, as pessoas que desejam ver o bodyboard nos Jogos Olímpicos parecem esquecer que o processo percorrido no surf foi muito longo e complicado, resultando num grande trabalho por parte da International Surfing Association e do seu presidente, Fernando Aguerre.

Não basta pedir/exigir através de publicações nas redes sociais anexadas de um par de imagens. Há muito mais para fazer. O trabalho é duro e exigente.

Na verdade, o trabalho no surf começou a ser feito há 100 anos atrás quando Duke Kahanamoku, considerado o pai do surf moderno, além de ter sido medalhado olímpico na natação (com três medalhas de ouro e duas de prata); pediu ao COI (Comité Olímpico Internacional) a inclusão do Surfing nos Jogos Olímpicos – sonho que só veio a ser concretizado a 3 de agosto de 2016. 

É um trabalho de bastidores, de perseverança e de muito trabalho. Eu diria que de certa forma até é político, mas que tem que existir para que o bodyboard acabe por ser reconhecido e convidado a participar nesta grande competição que são os Jogos Olímpicos.

A grande questão é: Quem estará disposto a fazer esse trabalho pelo bodyboard? Será a IBC que é o braço profissional da modalidade e o que temos de mais parecido à WSL? Ou a ISA que detém oficialmente a guarda do bodyboard embora não realize uma competição há vários anos?

Uma última questão: Tal como fez no surf, estará Fernando Aguerre disposto a dedicar o mesmo tempo e energia ao bodyboard?

Apesar do bodyboard moderno ser relativamente novo, pois “só” fez 50 anos a 7 de julho deste ano, também eu sonho um dia em poder ver o primeiro campeão olímpico na disciplina de bodyboard. Porém, primeiro há que encontrar as pessoas certas, que tenham o mesmo sonho e que sejam francamente obstinadas em levar por diante tão ambicioso projeto. 

Isto é apenas algo para todos pensarmos e digerirmos. Para já deixo-vos com alguns dos passos mais importantes e marcantes para a inclusão do surf nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020:

Maio de 1912 – O “Pai do Surf”, Duke Kahanamoku, conquista a sua primeira medalha de ouro, em Estocolmo, e pede pela primeira vez a inclusão do Surfing no Jogos Olímpicos;

Setembro de 1920 – Duke Kahanamoku vence duas medalhas olímpicas em natação (100 metros livres e por equipas EUA nos 4x200m) em Antuérpia; 

Novembro de 1992 – O presidente da International Surfing Association (ISA), Jacques Hele, inicia o movimento do surf nas Olimpíadas; 

Abril de 1994 – Jacques Hele marca presença em várias reuniões internacionais e mantém o intuito de incluir o surf nos JO; 

Maio de 1994 – Fernando Aguerre entra na ISA e inclui o “surf olímpico” no programa da associação, planeando a sua inclusão nos JO de Sydney 2000; 

Agosto de 1994 – A ISA pede para ser reconhecida pelo Comité Olímpico Internacional (COI); 

Março de 1995 – Fernando Aguerre recebe apoio da indústria do surf e consegue levar os ISA World Surfing Games para Huntington Beach, na Califórnia; 

Abril de 1995 – O Comité Executivo do COI reconhece provisoriamente a International Surfing Association (ISA); 

Junho de 1995 – No congresso anual do COI, a decisão do Comité Executivo passa a final, reconhecendo em pleno a ISA como a Federação Internacional para o Surf e Bodyboard; 

Setembro de 1995 – Na sequência do reconhecimento, a ISA faz uma doação especial ao museu do COI; 

Maio de 1996 – O presidente da FIFA, João Havelange, a maior federação desportiva do mundo, torna-se embaixador para o Surf; 

Agosto de 1996 – O Questionário de Admissão para as Olimpíadas é formalizado e enviado para o COI; 

Outubro de 1996 – Os ISA World Surfing Games, em Huntington Beach, tornam-se o maior evento de surf mundial, com mais de 600 atletas de 36 países; 

Novembro de 1997 – O COI solicita duas bandeiras da ISA, uma para a sede do COI e outra para o seu museu; 

Agosto de 2002 – A ISA recebe uma carta a dizer que o Surf não fará parte dos JO de Pequim 2008, porque ainda não atingiu a meta de 75 nações associadas; 

Novembro de 2003 – A ISA reenvia novo documento, que visa uma reavaliação, para o COI; 

Junho de 2008 – O presidente da ISA participa no SportAccord, onde apresenta a inclusão do Surfing nos programas culturais e educacionais das Olimpíadas da Juventude em Singapura 2010 e nos JO de Londres 2012;

Agosto de 2008 – Fernando Aguerre, presidente da ISA, publica “Surfing in the Olympics”, uma peça fundamental para a inclusão nos Jogos Olímpicos; 

Outubro de 2009 – Fernando Aguerre participa oficialmente no Congresso Olímpico; 

Julho de 2011 – O Surf não é incluído nos JO de 2020. Apenas o Wakeboard é mencionado nos desportos de prancha; 

Setembro de 2015 – A organização de Tóquio 2020 propõe o Surfing para as suas Olimpíadas; 

Junho de 2016 – O COI apoia a proposta de acrescentar o Surf e outras quatro novas modalidades no programa dos JO Tóquio 2020; 

Agosto de 2016 – Na 129.ª reunião, o COI confirma em definitivo a inclusão do Surfing no programa desportivo de Tóquio 2020.  xxx