Na sequência do lançamento da nova produção em vídeo de Steph Kokorelis, “ΣΤΕΦ”, decidimos lançar umas quantas questões àquele que é hoje considerado um dos maiores free surfers do país. Aproveita para ler o que nos contou/revelou o bodyboarder do momento!

English version HERE (* sorry, we’re working on it)

Fotografia de António Saraiva, Vandieli Maria, Seb Boulard, Rafael Elias & Pedro Miranda

O teu novo vídeo está uma grande malha e com imagens mesmo top…

Koko: Obrigado pelas palavras. Fico muito feliz que a Vert Mag tenha gostado do projeto. Para mim é sempre uma referência importante a nível nacional e internacional.

Fala-nos do quão importante foi a introdução de Sina Luxor, que vem seguramente trazer alguns apontamentos importantes que fogem às produções habituais, revelando mesmo um cunho que por vezes só conseguimos observar em ensaios fotográficos do mundo da moda…

Koko: Muito bem, já esperava esta questão. Desde o dia em que concordámos fazer um projeto juntos, que eu e o [Ricardo] Pina tínhamos em mente fazer algo relacionado com moda. A primeira ideia a surgir foi representar uma tensão entre um rapaz e uma mulher. O nosso objetivo foi captar emoções faciais fortes, de incerteza, com uma introdução de medo e misticismo à mistura. Investimos bastante na produção e na definição do local das filmagens, pois queríamos realmente transmitir com a máxima transparência esta possível tensão humana que, de certa maneira, se relaciona com o nosso desporto e com o dia-a-dia do ser humano que vai ao mar em busca de momentos únicos e especiais, sempre repletos de incertezas e volatilidades das condições que a natureza implementa.

A ação cruza vários spots da costa portuguesa, mas ganha definitivamente especial relevo num certo slab do oeste. É este o teu palco preferido na atualidade?

Koko: Na verdade diria que não tenho nenhum spot preferido. Tenho vários spots que considero muitos especiais pela sua inconsistência, pelos diversos fatores que necessitam de estar alinhados para, de facto, esse tal spot se apresentar na sua melhor versão. Porém, posso adiantar que este pico, que tem mais relevo no meu vídeo, me dá muita “pica”, deixa-me desconfortável em certas situações e, sem dúvida, é uma das razões pela qual continuo a ir sempre que a previsão promete boas ondas.

“É lindo ver pessoas a vivenciar as mesmas experiências e ainda mais poder partilhá-las com grandes inspirações e amigos”

Que características dirias serem necessárias para alguém que deseja, um dia, explorar este tipo de ondas que são, claramente, mais violentas e exigentes?

Koko: Em primeiro lugar, surfar com frequência. Pelo menos 1/3 das surfadas tentar num spot que seja um pouco mais desafiante que o normal. Ou seja, ter esta vontade de se desafiar a si mesmo constantemente. Em segundo, estar em forma. Eu até diria estar na máxima capacidade física para enfrentar qualquer imprevisto que possa surgir e treinar muito fisicamente (por ex: circuitos de alta intensidade, remadas fortes, exercícios de cardio e resistência). Por último, ter sempre a consciência na situação que se está a pôr. A ideia é ir evoluindo progressivamente e há de chegar a um ponto onde vão ter a confiança para enfrentar condições mais intensas e violentas. Uma última chamada: Nunca entrem sozinhos nessas sessões mais desafiantes.

Em setembro do ano passado passaste a fazer parte do Team Pride. Em que medida o material desta marca veio ajudar a melhorar/beneficiar os teus desempenhos? 

Koko: Sem dúvida que a qualidade do material da Pride está no topo de mercado. É um prazer poder usufruir do melhor material que existe. À partida, tens mais confiança do que se tiveres a surfar com uma prancha de qualidade inferior. Na minha opinião, a Pride apresenta ao mercado três propostas de shape totalmente diferentes:

O pro model do Pierre [Louis Costes] é uma prancha única, super estreita, que, a meu ver, funciona bem em mar perfeito e em condições tubulares, mas não demasiado exigentes.

O pro model do Tristan [Roberts] é muito versátil. Diria que é uma prancha que se pode utilizar em todo o tipo de condições e que permite ganhar muita velocidade devido ao seu shape mais reto.

Já, o pro model do Lewy [Finnegan] permite-me surfar em condições de mar grande, mexido e muito exigente com muito conforto. É um shape mais largo, sinto mais controlo a surfar ondas grandes com este modelo.

Por fim, saliento também o Radial Flex que é a minha preferência para o material das pranchas, pois permite que obtenha bastante velocidade nas ondas, que é um dos pontos fundamentais na prática de Bodyboard.

Nos últimos anos tens estado definitivamente mais envolvido em sessões de free surf, em desbravar spots e apanhar ondas desafiantes do que propriamente o mundo da competição. Sentes que isso foi uma evolução natural ou algo que trabalhaste ao longo dos anos?

Koko: Tenho notado que desde de criança o que me enche as memórias sempre foi “aquela sessão especial numa tal praia com uns certos amigos”. A minha primeira surf trip foi na ilha de São Miguel, nos Açores, e para o grupo que foi comigo foi basicamente uma viagem feita especificamente para competir numa prova do circuito nacional. Para mim, como ainda não tinha nível, foi uma viagem onde aproveitei para surfar ondas diferentes e evoluir de forma a poder acompanhar os meus parceiros. No entanto, nunca mais esqueci as primeiras visões dos tubos, as entradas nos mares difíceis, picos de rocha, do medo que sentia em cada uma destas experiências.

Já as competições eu sempre gostei, mas tinha que entrar num modo “on” para desfrutar. Sinto que não era 100% natural. Acho que a minha motivação eram os meus treinadores Zsolt [Lorincz] e Paulinho [Costa], dois grandes bodyboarders, que eu respeito muitíssimo e que me transmitiam os seus exemplos de carreira. Acabavam por incentivar-me a conseguir patrocínios e a comparar-me com outros miúdos da minha idade e/ou mais velhos.

Ainda sobre a competição, que opinas sobre o estado do Circuito Nacional, especialmente nos últimos anos, e será que algum dia ainda te veremos a competir?

Koko: Tenho a dizer que sofreu algumas alterações desde os últimos anos. Sem dúvida, para melhor. Uma imagem mais clara potencia mais confiança aos seus parceiros, conquista mais marcas e mais pessoas. Na minha opinião, sem querer criticar o trabalho de ninguém, acho o painel de juízes muito fraco. Lamentável. Favorece certos atletas, não arrisca, não evolue, não acompanhou certamente o ritmo de evolução do desporto. Foi uma das razões pela qual nunca mais entrei numa competição nacional.

A estrutura do circuito nacional é um modelo tradicional que não sofreu alterações desde que o bodyboard começou. Óbvio que, em geral, o bodyboard nos últimos anos passou por anos difíceis. O Bodyboard é um desporto interessante quando os atletas têm possibilidade de fazer todas as manobras que foram inventadas pelos pioneiros do desporto. Porém, é muito raro proporcionarem-se condições onde os fãs podem ver todo o repertório de manobras ser feito. Será que Portugal não tem ondas suficientemente boas? Com um pouco mais de esforço, não há forma de melhorar o circuito? Períodos de espera? Alternativas de diferentes fins de semana? Melhor escolha de praias? De norte a sul? Acredito que nada disto é fácil, mas, na minha opinião, acho um fracasso marcar-se em janeiro um campeonato numa determinada praia para o mês de setembro. Não há garantias de sucesso, nem uma pequena probabilidade. Está errado.

O que mais gostas nesses dias de “big surf” ou dias em que dás por ti a desbravar um fundo de pedra bem desafiante?

Koko: A turminha que se junta. É um feeling que sentimos em conjunto. Não há maior felicidade. É lindo ver pessoas a vivenciar as mesmas experiências e ainda mais poder partilhá-las com grandes inspirações e amigos. Um conjunto de pessoas que se levanta da cama a meio da noite, vai à procura de ondas em lugares estranhos, à procura de um timing certo em que demasiados fatores da natureza possivelmente estão em sintonia. É, sem dúvida, uma das maravilhas deste mundo (quando tudo bate certo). (risos)

Nestes dias de “big surf” existe uma ocorrência que acho muito especial. Não interessa o que se passou ontem ou o que vais almoçar nesse mesmo dia, mas antes uma tendência em focar no presente. Em cada segundo que derrama o presente. De modo a aproveitar ao máximo estes momentos.

“Irei continuar a levantar-me de noite para estar presente nas melhores sessões do inverno”

O que guarda o futuro para Steph Kokorelis?

Koko: Esta é sempre uma pergunta complicada que me leva a responder de forma ambígua, pois nada é certo nesta vida. Muito menos na minha. Gosto sempre de fazer coisas novas e diferentes todos os anos. E, como sabem, o Bodyboard não é um desporto que sustenta da melhor forma os seus participantes. Portanto, hoje em dia, considero o Bodyboard como um hobbie, tenho que ter um trabalho para sustentar-me e, no fundo, poder continuar a fazer tudo o que desejo na vida. Posso referir que no meu tempo livre irei sempre continuar com vontade de evoluir neste grande desporto. Irei continuar a levantar-me de noite para estar presente nas melhores sessões do inverno. Sempre que puder vou continuar a fazer viagens em busca dos melhores slabs e novas águas. A única garantia que posso dar é que o meu sonho é surfar e conhecer a Austrália. E vou certamente lutar por isso nos próximos meses. 🤘