Numa daquelas saídas de madrugada à procura de ondas e das melhores condições para o surf, Daniel Fernandes estava longe de imaginar que iria encontrar um pescador de 70 anos caído numa falésia, sem vivalma por perto e entregue por completo ao destino.

As palavras e o vídeo que se seguem são da autoria do próprio Daniel, que também é fotógrafo (vê o seu trabalho aqui, aqui e já agora ainda aqui) e fez questão de frisar que não procura qualquer protagonismo, apenas e só dar ênfase aos perigos de andar sozinho pelas arribas e ainda assinalar as deficiências observadas no processo de salvamento.

Um bem haja Daniel por estares no momento certo à hora certa. 


“Quero iniciar este texto com um agradecimento de coração cheio a todas as pessoas que iniciaram este salvamento, bem como à corporação de resgate da Ericeira. Gostaria de saber os nomes dos dois senhores que vivem ao início desta zona, pois foi com o telemóvel deles que consegui acionar os meios de salvamento, porque simplesmente deixei o meu em casa.

O que me aconteceu hoje pode acontecer a qualquer um de nós e especialmente a todos aqueles que descem as ravinas da Ericeira em busca de ondas perfeitas. O perigo está a espera e a hora do azar pode bater a qualquer um de nós.

O que quero acima tudo dizer é que, caso haja um acidente como o de hoje, em que uma pessoa ficou presa numa zona de difícil acesso, o que irá acontecer a seguir é um evento que não desejo a ninguém.

A corporação de salvamento e resgate que foi ter comigo é composta de pessoas experientes nestes casos e mostraram conhecimento, especialmente nestas zonas onde acontecem este tipo de acidentes.

O que quero salientar não é a dedicação nem o profissionalismo, mas sim a falta de meios e rapidez em atuar. Desde que chegaram ao local no topo da falésia, chegar até mim e finalmente recolher a vitima decorreram mais de 2 horas. O plano e a forma de como retiraram a vitima foi longo e, caso o estado desta fosse mais grave, teria com toda a certeza falecido no local.

Graças a Deus, recebi um telefonema da Capitania da Ericeira a dizer que o Sr. Joaquim está bem e junto da sua família, apresentando apenas a cabeça partida e algumas escoriações.

Uma costa litoral tão grande e um salvamento destes demora mais de 2 horas. Creio que este tema deveria ser analisado e estudado de forma a criar uma resposta rápida a todas as pessoas que fazem desportos na água, especialmente em fundo de pedra na zona da Ericeira, mas também proteger e apoiar aqueles que do mar retiram alimento. De que serve comer à mesa uma boa mariscada ou peixe grelhado se afinal estão acontecer acidentes deste género?

Partilhem com as pessoas que fazem disto vida ou simplesmente se conhecem uma forma de prevenir e tentar de certa forma dar algum conforto em cada amanhecer.

Sei de eventos no passado que aconteceu algo semelhante na zona da Cave, e foi aí que pessoas amigas e também atletas que frequentam a zona iniciaram o alerta. Pelo que parece isto acontece, segundo a equipa de salvamento, frequentemente com pescadores.

É preciso mais meios e é preciso prática nestes salvamentos, pois continuaremos a descer as ravinas seja de cana pesca ou de prancha debaixo do braço. Nunca se esqueçam do telemóvel, pois pode salvar vidas e hoje nem eu nem o Sr. Joaquim tínhamos um à mão. Fiquem alerta amigos e a cada passo ao descer muito cuidado.

Por último, em tom de suspiro, penso: Porque fui eu ali hoje, onde nem ondas havia?

Fé em Deus, pois ele esteve junto comigo ao guiar-me até este pescador de 70 anos que ainda desce falésias em busca de alimento.”

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