Texto retirado do artigo “Rostos Lusitanos” da Vert 110 (2014). 

Numa solarenga tarde de junho, Nuno “Batata” Leitão chega bem disposto e de aparência tranquila à Estação de Serviço da BP, na Ericeira. Está na pausa de almoço do trabalho como designer numa empresa da vila e mais não tem feito nos últimos meses do que dedicar-se ao emprego e à família. 

Até porque, a certa idade, um bodyboarder torna-se mais seletivo, espera pela ondulação certa para retirar o máximo de umas tocas e de uns lips. Palavras do próprio. O certo é que, mais ou menos visível nas águas, o bodyboarder de Carcavelos é um dos históricos que influenciou uma geração de atletas portugueses pela entrega leonina e explosiva às ondas e demarcada presença nos momentos em que o desporto se revela uma verdadeira batata quente. 

A competição nunca terá sido o seu forte, embora ele se ria e enjeite o perfil que lhe traçaram ao longo dos anos. “Sabes uma coisa engraçada, há várias pessoas que dizem isso. Fui Campeão Nacional em 1997, Vice-Campeão Nacional em 1998, Vice-Campeão Europeu em 1996, ganhei várias etapas do Europeu entre 1996 e 2000, fiquei em 5º lugar num mundial em Sintra… Ou seja, consegui conquistar muitos títulos e campeonatos. As pessoas talvez desejassem que o Batata seguisse o caminho do Pinheirinho e do Centeno, que eu fosse o terceiro elemento. Acontece que nunca estive para a competição como se calhar eles estão. Competi para conseguir angariar algum dinheiro, através de campeonatos e patrocínios, para continuar a alimentar o sonho de fazer bodyboard. Estou muito satisfeito, ganhei imensos títulos. As taças para mim são marcos na minha vida e cada uma tem o seu significado.”

Com ou sem títulos de encher o olho, o Batata é um daqueles bodyboarders que podíamos ficar a observar no mar horas a fio. E, no fim, até acabávamos o dia a ouvi-lo relatar lendas de tempos áureos. O homem tem histórias do arco-da-velha capazes de ressuscitar o espírito de um qualquer desapaixonado bodyboarder, vincando a verdadeira essência do bodyboard. Numa fase em que o desporto se encontra murcho, o génio frontal do Batata sobressai para apontar, desde logo, a maior das imperfeições do desporto em Portugal. 

“Na fase em que a comunidade, mais do que nunca, devia estar unida, encontra-se mais partida do que alguma vez aconteceu até hoje.” E é pelo ideal da unidade e preservação do bodyboard que o espírito inabalável do Batata se eleva, ou não se tratasse da paixão da sua vida. 

“Já pratico bodyboard há +25 anos e para mim sempre foi um escape. O desporto serviu para que realmente conseguisse desligar dos problemas que tive ao longo da vida. Venho de famílias humildes e o empenho e garra que tive eram para mostrar a mim mesmo que conseguia atingir os meus objetivos. Senti que aquilo era algo que eu gostava, que eu amava mesmo, uma cena a que me entregava a 100%. Foi essa entrega que delineou todo o meu percurso. Vejo o bodyboard como um estilo de vida.”


Texto: Ricardo Miguel Vieira | Fotografia: Pedro Graça

Comentários