Texto retirado do artigo “Rostos Lusitanos” da Vert 110 (2014) com vista a celebrar o 38.º aniversário de Hélio Conde, o “Laranja”. PARABÉNS!

(…) sentei-me numa esplanada com outro dos bodyboarders que figuraria nos livros da história do desporto em Portugal. Hélio “Laranja” Conde, 34 anos, é ainda um símbolo da fortaleza bodyboarder de Peniche e um dos mais acarinhados e humildes atletas daquele litoral. Era o espelho da originalidade e garra dentro de água, qualidades que só alguns predestinados têm no sangue. Quem não se recorda da secção do Laranja no filme “Liberdade de Movimento”, em que se lançava dos lips em manobras criativas e menos conhecidas no bodyboard, como El Rollos invertidos e Gorfs? 

“Cresci com o bodyboard português, via muito o Gonçalo Faria, o Paulinho, a velha geração toda, e também via os australianos. Então achava que nós tínhamos potencial para sermos tão bons ou melhores que eles. Pensei, ‘se eles são capazes, então nós também somos capazes’. E comecei a brincar com isso dentro de água com os meus amigos, fazendo Frontflips e Backflips, que não altura não existiam. Depois até fui para a ginástica artística e trampolins para poder praticar melhor os movimentos, e daí surgir as tais manobras”, conta-me entre baforadas num Golden Virginia na esplanada do Danau Baleal Beach Club, onde trabalha.

Laranja amadureceu na mesma época dourada do Batata e partilha com ele caraterísticas em comum: tem um discurso direto e despudorado, a competição não o atraía – apesar de alguns bons resultados, por exemplo, no mundial em Sintra – e vive o bodyboard com a mesma intensidade e ardor que há 15 anos atrás. Reparem, acorda às seis da manhã para ir buscar os miúdos para as aulas de bodyboard que leciona; deixa-los em casa antes de entrar ao trabalho; e regressa ao lar já ao fim da tarde para estudar as fotografias e vídeos dos treinos. Laranja respira bodyboard e tem com o mar uma ligação para a vida que agora se empenha a transmitir aos mais novos. 

“O meu objetivo na água sempre foi divertir-me e superar-me a mim próprio. Se numa onda fazia um aéreo em que saía um metro fora de água, na seguinte tinha de sair dois metros. A relação com as ondas vem desde miúdo, cresci em frente ao mar e sempre tive contato com ele. Ganhei um à-vontade com o mar. Quando comecei a praticar bodyboard, gostei da velocidade que gerava quando deslizava numa onda. Ao projetar os primeiros El Rollos e 360 Aéreos reparei que isto dava para fazer imensas coisas. Daí que pensei que quanto maior surfasse, maior seriam as batidas nos lips, mais tempo estaria no ar e mais tempo teria para fazer as manobras que quero. E é tudo o que aprendi ao longo da vida que hoje transmito aos meus alunos.”


Texto: Ricardo Miguel Vieira | Fotografia: Marco Gonçalves

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