Nesta sexta aproveitamos para transcrever um texto de Miguel Rosberg que nos revela um episódio/desafio pessoal vivido durante uma das edições passadas do Sintra Portugal Pro na Praia Grande. Um dos momentos mais marcantes da sua vida, segundo o próprio, que pode e deve servir de exemplo para todos nós. 


“No fear?” Errado.

Eu preciso ter medo para conseguir coragem. 

Depois de meses e meses a treinar com rigor a minha componente técnica com treinos no mar com as bases que Escola Nova Onda me deu, a minha preparação física com o PT Saíds, psicológica com o coaching Marcelo Branco, de ligação mente corpo através do yoga e meditação com Teresa Viana, chegou o momento de entrar na água com a licra.

O mar estava muito poderoso nesse dia, estava grande e com condições muito complicadas. Foram 25 minutos de heat: após os primeiros minutos, os objetivos estabelecidos com meses de antecedência mudaram completamente e o heat, em vez de ser entre mim e os outros três adversários internacionais, passou a ser entre mim e o mar.

Dos 25 minutos, 24 deles passei a remar, a remar, a remar e a remar. Entrei do lado direito da Praia Grande e remei e remei. Fui parar à outra ponta da praia, saí a correr e voltei a deslocar-me para a ponta oposta da praia. Isto passou-se três vezes durante 24 minutos. O mar não estava mesmo a colaborar com linhas de espumas a 200/300m da costa e ondas de 3 a 4 metros. Não pelo tamanho, mas pelas suas caraterísticas: cadência de ondas elevada e vassouradas vindas de muito longe. Senti várias vezes tonturas e sensações de desmaio na corrida devido ao esforço que estava a exigir. Estava esgotado, mas persisti, dentro dos meus limites.

Aos 24 minutos, no último minuto do heat, consegui concretizar o meu objetivo alterado. Após o heat estava triste e sentia-me derrotado. Perturbado, porque parecia que nada estava a fluir. Perguntava- muitas vezes: “Porquê? Porquê a mim?” MAS… 

Foi quando cheguei cá fora que os meus horizontes abriram totalmente. Algo estava a acontecer. Algo estava a comunicar comigo. Sentia as pessoas todas tristes a dizerem que tive azar e que lamentavam… MAS eu passei a estar feliz e com um sentimento de concretização sem saber porquê. Procurei a razão pela qual e, de facto, cheguei à conclusão que estava a aplicar um dos conceitos fundamentais que se tratava no coaching: VIVER O PROCESSO E NÃO SÓ O PRODUTO. 

O campeonato não começou e acabou naquele dia. Começou há meses atrás e terminou naquele dia, e tudo o que aprendi não foi só naqueles 25 minutos, mas também em todos os meses de trabalho! 

Aprendi a aplicar o conceito nessa etapa: O processo todo levou-me a sítios e a níveis de conhecimento pessoal que nunca tinha sentido, puxou-me para campos desconhecidos e pôs-me verdadeiramente à prova. Trazendo-me conhecimento e experiência que trago comigo hoje em dia!

Consigo agora visualizar um transfer deste conceito para todas as outras áreas da minha vida: tudo o que termina na vida não pode ser visto como apenas o produto final. Não resumir o outcome de uma experiência/etapa da vida ao resultado, mas antes valorizar todo o processo, todo o caminho feito até chegar ao produto. Concluo que com trabalho se consegue transformar um resultado negativo num resultado positivo ao ter em conta o processo, todo o caminho percorrido.

Esta era a partilha que vos queria fazer! Nem tudo o que aparenta ser mau o é!

Somos criadores! Criadores da realidade! Não ser controlado pela mente, mas controlar a mente. Filtrar os pensamentos e ter poder de selecioná-los é a chave!

Nesta fotografia [um pouco mais acima] estou a correr com o Marcelo Branco a meu lado, a optar por uma via alternativa para concretizar o meu objetivo. Independentemente do resultado do heat eu não estaria ainda de pé nesta fotografia se não passasse pela incrível viagem de preparação!

Obrigado a todos os envolvidos! Desde família, coaches e amigos.  


Nota: Imagens meramente ilustrativas de Pedro Graça

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