O Pedro Levi é incontestavelmente um dos bodyboarders portugueses que apresenta um apetite natural para condições extremas. A sua relação com a Praia do Norte é sobejamente conhecida, mas esta temporada os objetivos passam por alcançar um recorde. Quisemos saber mais sobre o seu novo projeto. 


Fala-nos do teu projeto para a Nazaré. Em que consiste e como surge? 

Consiste em fazer um recorde mundial do Guinness em surfar a maior onda em Bodyboard na remada e em tow-in. Incluir e fazer o bodyboard presente nas maiores ondas do mundo na Nazaré e, se possível, no mundo inteiro. Surge da minha paixão pelas ondas gigantes. Tenho uma perigosa fixação e gosto pela força superior e bela das massas de água que aparecem naquela praia…  ‌

“[a Praia do Norte] É uma relação de amor e ódio”

Na Praia do Norte já tiveste alguns episódios caricatos que se podem até considerar de “no fio da navalha”. Numa temporada passada foste resgatado num dia muito grande e há uns anos chegaste a partir uma prancha. Fala-nos disso…

É uma relação de amor e ódio. Por um lado sinto que é onde pertenço, nos dias grandes e não só. Dá-me um grande mix de emoções. Transmite calma, alegria e emoções fortes. Sinto-me desafiado e realizado por causa de todo o tipo de ondas que por lá quebram… e depois mais humilde e concentrado por causa dos dias grandes. Completa-me, porque é perfeita para treinar um Bodyboard mais técnico também. E depois sinto alguma tristeza por não ter os meios necessários para estar mais presente nos dias grandes… 

Acerca do episódio em que fui resgatado, que aconteceu no dia 24 de outubro de 2016, ao ficar abismado com as condições perfeitas de ondas gigantes, vi-me atraído a entrar. Decidi ir a remar desde a Praia da Vila, visto que era impossível entrar pela Praia do Norte. Foi um percurso longo até lá chegar que me esgotou de cansaço. Quando cheguei ao outside tentei por três vezes apanhar uma onda gigante, mas era impossível entrar numa onda daquele tamanho recorrendo somente à remada. Ao fim de um bocado, o Porkito e o João de Macedo, que estavam na mota de água a filmar o Carlos Burle, convidam-me para uma boleia até ao porto de abrigo. Isto, querendo eu apanhar uma onda para sair pela Praia do Norte. Quando aceitei e entro no “sled” ao mesmo tempo entra uma onda gigante. A mota de água tem dificuldade em avançar por sermos três ou por outra razão qualquer, demorando a chegar à velocidade certa. Como estávamos a fugir da onda de lado e não perpendicular a ela, acabámos por ser apanhados e engolidos. O Carlos Burle e a Maya Gabeira resgataram o João e o Porkito, e eu apanho uma onda mais pequena em direção à areia. Foi o dia mais mágico de todos os que fiz Bodyboard… Acho que só valeu a pena porque vi ondas únicas de 20 metros, que poucas pessoas já viram, a quebrar a metros de mim… e foi um momento magnífico que me deu ainda mais vontade e gozo para trabalhar e para um dia estar na água e descer uma onda desse tamanho.  ‌

“Tenho uma perigosa fixação e gosto pela força superior e bela das massas de água”

Vamos pedir que esclareças aquela vez em que entraste com “câmaras de ar” à volta do corpo. Qual o objetivo? 

O objetivo foi encontrar uma solução face à falta de equipamento de segurança que tinha na altura. Pelos vistos acabou por ser útil e até funcionou como colete de flutuação. O Garrett McNamara passou a chamar-me “Patagonia Boy”, em jeito de brincadeira, por ter inventado um novo modelo de colete insuflável, pois os primeiros a aparecerem naquele ano eram dessa marca. Pelo facto de estar na faculdade, a trabalhar para pagar as minhas surfadas e despesas, e ainda fazer um esforço para ter tempo para surfar, tornou-se impossível organizar-me de forma a ter uma estrutura que permitisse ter os equipamentos de segurança à minha disposição. Este ano estou mais organizado e focado. Tomei decisões um bocado difíceis para tentar fazer este projeto, mas com condições de segurança e os materiais necessários.

Uma vez que os bodyboarders descem as gigantes da PN deitados, parece-te realmente viável o uso de um colete insuflável?

Claro… O colete insuflável é um instrumento de segurança imprescindível e em primeiro lugar temos de estar preparados para quando as coisas dão para o torto. O colete faz pressão no diafragma e de certa forma dificulta a respiração na descida da onda deitado. O colete faz parte de só mais uma solução que se tem de arranjar para fazer isto acontecer de descer as ondas deitado. 

“(…) é importante saber utilizar o nosso corpo em conjunto com nossa mente”

E sobre pranchas, que tipo de mudanças levaste a cabo com vista a obter mais controlo?

Mais uma solução e adaptação que se teve de fazer. É impossível descer uma onda gigante na Nazaré com uma prancha profissional normal, visto que a onda é rápida, tem muita massa de água e muita força, apesar de ser deitada q.b. A velocidade e os “bumps” fazem com que o bodyboarder salte, acabe por perder o controlo e caia. A Refresh Boards descobriu um material – que se mantém secreto – que não só é mais pesado como tem muito boas características de flexibilidade, absorção dos impactos e memória quando em grandes velocidades. Resta agora descobrir até que velocidade aguenta e em que tamanho limite até fazer saltar como acontece com uma prancha profissional normal. 

Como te preparaste fisicamente para esta temporada de ondas grandes? 

Tenho andado a treinar resistência pulmonar com a Wave Crushers Training System/ preparador físico João Parisot. Tudo com o objetivo de ganhar mais tempo de apneia que só acontece quando se treina. E às vezes o treino também passa por estar na água a surfar com ondas maiores e difíceis. Mas também é importante saber utilizar o nosso corpo em conjunto com nossa mente para conseguirmos aguentar debaixo de água. Sobreviver passa pela nossa estratégia mental quando confrontados com estas situações nas ondas grandes. 

“(…) vou arranjar maneira de lá estar nos dias grandes”

Última questão: já houve contacto?

O único contacto que tenho andado a fazer em relação à Praia do Norte é com uma grande marca que me permita surfar a Nazaré gigante totalmente preparado, em segurança e devidamente equipado. Já tive contacto com a Praia do Norte esta temporada, mas ainda não em ondas que ambiciono. Quero juntar-me aos melhores para fazer isto acontecer. Será muito mais valorizado este feito (recorde), quer para uma marca quer para o bodyboard em si… e para mim fazê-lo por meio de um patrocínio. Com um grande apoio ou não, estou a trabalhar e vou arranjar maneira de lá estar nos dias grandes devidamente equipado e preparado.


Fotografia: Guilherme Soares & Nuno Nóbrega

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