Texto de André Carvalho

Escrever sobre surf trips sempre me foi prazeroso e instigante. Aprecio tanto quanto o próprio ato de viajar atrás de ondas. Desta vez tá difícil, confuso e demorado. Entretanto, aprender com a vida e o mar é um privilégio. Portanto, vamos em frente.

Viver e todos os seus significados ganham força e profundidade a cada viagem. Sabemos com antecedência que estaremos em situações de risco. Sabemos que, em alguns momentos, nossa vida estará em jogo. Sabemos e aceitamos estes riscos e o preço que cobram algumas das melhores ondas que existem. Mesmo assim, a paixão pelo esporte e pela adrenalina nos leva ao extremo.

Há algo nobre em morrer dentro de um tubo e esse sonho – ou pesadelo se assim lhe bater – é uma fábula oferecida a poucos. Todo o meu respeito e conforto à família do Rafa Piccoli, mas não tenho a capacidade de relatar, como sempre fiz, a ida ao México sem pensar, sentir e tocar nesse assunto.

A intensidade dos dias na estrada tem proporções dantescas e às vezes tenho a sensação de que vivemos anos em poucos dias.

Que saibamos ser gratos pelos privilégios que recebemos e possamos passar adiante todo e apenas o bem que nos é agraciado.

Nós todos, uns mais e outros menos, temos a incrível capacidade de adaptação e essa característica é fundamental para aproveitarmos o melhor que a vida nos oferece, independente da situação em que nos encontramos. Interpretar os ventos e as ondas nos ensina a navegar…

Estar no México durante a temporada de ondas é, sempre, um objetivo. Anos atrás, na minha primeira experiência em Puerto Escondido, passei um mês surfando Zicatela e Punta Colorada. Picos famosos e com incrível qualidade, muito além do que temos na região sul do Brasil. Este ano dividi o tempo entre as ondas que já conhecia e picos alucinantes ao norte e ao sul do estado de Oaxaca.

Nesta segunda temporada minha atenção flutuou entre treinar para elevar meu nível técnico, filmar um curta metragem relacionado ao nosso esporte com a produtora Ecoa Filmes e acompanhar amigos como instrutor de bodyboard. Sobre o filme, posso dizer que falta pouco para sair.

Zicatela é uma onda manhosa e exigente, é preciso entrar em sintonia com ela. Bruta e espetacular, daquelas que cobram alto pelo prazer que proporcionam.

Neste ano de El Niño, a temporada de chuva tardou a chegar e maio foi “ruim” de ondas comparado a qualidade que o pico costuma oferecer. Bancada desajeitada, ventos desfavoráveis, pouca qualidade e ondulações tortas. Colorada também “sofreu” com a presença do Guri (El Niño).

Porém, como sabemos, o Oceano Pacífico é bizarro e o México tem tanta onda boa que ainda tô me perguntando por que voltei pra casa no meio da temporada de pesca da tainha!!! Bom, vamos ao que interessa para quem vai viajar e poderá usar esse relato de alguma maneira.

A exemplo da Indonésia em 2017, este ano uma promoção de uma certa companhia aérea levou e levará uma horda de brasileiros ao México. A oportunidade de deslizar em ondas que não encontramos no Brasil fica mais acessível a mais pessoas e isso, particularmente, é muito bom. Acredito que também é positivo às economias locais. Brasileiro é mato por lá no momento…

Se para economia local isso é bom, para alguns locais nem tanto. Dividir as ondas com grandes grupos é mau para todos, dividir a clientela de turistas com mais pessoas, aparentemente, também. Fizemos um bate e volta em uma onda ao norte de Puerto Escondido e pegamos boas ondas. Gastámos pouco e tivemos o lugar só para o nosso grupo naquele dia.

No sul, próximo à Salina Cruz, passamos mais tempo e pegamos altas ondas! Longas linhas com sessões tubulares e ótimas rampas para combinações de manobras. Uma vez escutei que essa região pode ser comparada às ilhas Mentawaii pela quantidade e qualidade dos picos, só que acessível por terra ao invés de barco.

Ainda não conheço as Mentawaii, mas brother… o México é foda!!!

Respeitámos as culturas locais, vivemos para aprender, absorver e trocar conhecimentos. Mas, servir para otário quando estamos a trabalho não nos serve. Querendo ou não, viajar requer ritmo e malemolência. O universo do surf, todos sabemos e vivenciamos no dia a dia, é agressivo e bruto nos principais picos de onda do mundo. Apesar de todo o marketing do esporte vender a ideia de que nosso mundo é feito de pessoas bonitas e altas ondas divididas com os amigos em lugares paradisíacos.

Tomámos dura de um guia local na região de Salina Cruz por não estarmos acompanhados de um nativo. Sabíamos que onde estávamos não precisava de guia, escutámos os latidos e seguimos pegando altas ondas. Tomamos dura de fotógrafos locais em Zicatela por estarmos filmando e fotografando. Nossas imagens servirão para um filme específico, escutámos os latidos e continuámos o nosso trabalho. Viajar também nos ensina a tomar porrada e manter a cabeça erguida quando estamos certos de que nossas atitudes não prejudicam o próximo e são carregadas de boas intenções.

Sim, fomos bem recebidos e bem tratados pela maioria das pessoas nativas com quem estivemos. Fizemos amigos, frequentámos as suas casas, vivemos o dia a dia como visitantes bem quistos em lugarejos simples e acolhedores. “Para bailar La Bamba…”

Informações importantes para os viajantes:

– Fizemos a troca de reais para pesos mexicanos no Brasil. Péssima ideia, a cotação foi de quatro pesos por real. No aeroporto da Cidade do México há casas de câmbio abertas 24h e o câmbio estava em torno de 4,5 pesos por um real. Se tiver dólares, pode ser uma ótima opção também. A cotação variou entre 17 e 18,5 pesos por dólar.

– Atenção para o transporte das pranchas! A Copa Airlines cobrou 150 dólares na ida. A Latam cobrou U$ 100,00. Porém, na volta nenhuma cobrou, acredito que pode ter relação com quem está atendendo no guichê no momento do embarque.

– Prepara o bolso! Há anos está institucionalizado o sistema de guias na região de Salina Cruz. Assim como o trabalho de produção de fotografias e filmes em Puerto Escondido. Sim, vale o investimento! Mas, há outras formas de aproveitar o México sem depender do preço que lhe darão conforme a análise da tua cara no momento da negociação. Encontrar essas maneiras fica por conta da sua determinação e capacidade de adaptação.

– Em Zicatela costumo ficar na Pousada Casa Lunalu do Vandielli e da Maria. Em La Bamba ficamos na pousada La Bamba Surf House do Ricardo. O almoço pós surf era no restaurante Nômada, do Tonho.

– Preparação física e psicológica são fundamentais no México. Divirta-se e agradeça.

Por fim, Fernando Pessoa e seu épico Mar Português.

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram. Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Bodyboarders envolvidos na aventura: André Carvalho, Bruno Cassola, Caio Araújo, Fabíola Jaeger, Iuri Giuliani, Jackson Jordan, Rafa Piccoli, Teresa Sukniek.


Fotografias: Bruno Rodrigues/Ecoa Filmes, Vandielli Ismael/Lunalu e André Carvalho/Ecoa Filmes

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