O Circuito Nacional de Bodyboard vive uma bem-vinda revolução em 2020. Mesmo lidando com uma pandemia inédita neste século, e com um arranque adiado vários meses (de março para agosto), o CNBB2020 promete fazer história com um calendário sólido e uma estrutura de comunicação e imagem de dimensão nunca vista. Algo a que, a julgar pelo buzz que vemos nas redes sociais e em conversas no seio da comunidade, será recompensado com uma adesão como não se conhecia há vários anos.

Os responsáveis do costume são a Federação Portuguesa de Surf e os clubes organizadores, mas com inestimável ajuda de um inesperado recém-chegado a estas andanças: Nuno Sousa Lopes.

Empresário de 48 anos, pai do jovem Rodrigo Lopes (campeão europeu Pro Junior em 2017), apaixonado pelo mar e, especialmente pelo Bodyboard, que considera “a mais espetacular modalidade de desportos de ondas”, Nuno Lopes assumiu, de há dois anos para cá, o papel de despertador do “gigante adormecido”.

Em 2019, após firmar com a FPS um acordo de cedência de direitos de imagem do Nacional de Bodyboard, Nuno Lopes e uma pequena equipa ensaiou o primeiro ensaio de organização do Nacional, com assinalável sucesso, mas em 2020, com a entrada do patrocinador principal Crédito Agrícola, entre outros sponsors, a ambição é maior.

“O que se procurou fazer foi dotar o projeto com as peças certas nos lugares certos, mesmo com grandes limitações orçamentais. Procurámos pessoas competentes nas áreas de design, gabinete de comunicação, câmara, som, realização. Montámos um pequeno projeto, com profissionais motivados e experientes que nos permitissem ter algum conforto nos resultados e ambição de crescimento”, explica Nuno, que destaca como grande novidade de 2020 a introdução inédita de transmissão em direto, via webcast, de todas as quatro etapas do Nacional (Santa Cruz, Peniche, Nazaré e Póvoa de Varzim).

“A equipa de produção que vai garantir a comunicação do circuito é constituída por 14 pessoas, com gabinete de imprensa, redes sociais e componente audiovisual; uma operação multicâmara com cinco câmaras em simultâneo, repetições e grafismos desenhados especificamente para o efeito”, pormenoriza.

Um dispositivo que, a somar ao aumento substancial dos prize money envolvidos (triplicam relativamente à média do ano anterior), promete atrair a nata do bodyboard nacional.

Isto, no meio de uma pandemia que também obrigou Nuno Lopes a recorrer a uma empresa especializada para a elaboração de um plano de contingência e segurança que se conta entre os mais sólidos do género e que será implementado em conjunto com a FPS e clubes.

Este é o projeto e os resultados até ao momento, mas quem é o homem por trás desta nova vida do bodyboard nacional, que parece respirar como nunca, no meio de uma crise de saúde pública e também da própria modalidade, que este ano se prepara para não ter um circuito mundial.

“Sou, essencialmente, um apaixonado pelo bodyboard, acho que é a melhor maneira de me descrever”, atira Nuno Lopes com o sorriso bem-disposto que normalmente pontua o seu metro e noventa por essas praias do país, normalmente atrás de uma câmara fotográfica ou de vídeo.

“A primeira experiência com o bodyboard foi nos anos 80, com 12 ou 13 anos, no eixo entre Ericeira e Santa Cruz, com uma prancha de esferovite debaixo do braço. Isto até aos 17, quando a pesca submarina e o mergulho me levaram ‘emprestado’ durante uns bons anos”, vai contando.

O regresso em força ao bodyboard aconteceu por mão do filho, Rodrigo. “Em 2009, o meu filho foi fazer um ATL e um dos protocolos foi com uma escola de surf e bodyboard em Carcavelos. Aí conheceu o Paulinho Costa e… foi uma doença à primeira vista que ainda perdura e que arrastou o pai com ele, como companheiro de ondas, motorista, mas sobretudo como fotógrafo e depois videomaker, recorda.

Foi com a câmara atrás que Nuno Lopes seguiu os Nacionais de Esperanças, os Europeus, posteriormente o Open e foi tomando o pulso à modalidade. E não gostou do estado do paciente.

“Não tinha noção do ‘estado da arte’ da modalidade, mas percebi que havia muito trabalho e empenho nos miúdos e privei com pessoas como Bernardo Abreu e João Imaginário e fui também percebendo que existia uma assimetria substancial de recompensa e visibilidade com o surf”, confessa, acrescentando:

“Percebi que não havia uma linha condutora estável e transversal na comunicação dos eventos e depois de muitos quilómetros, horas de clipes de vídeo e milhares de fotografias, abordei a FPS para uma parceria para garantir imagem e comunicação, com material a passar na imprensa especializada, mas também generalista e desportiva, redes sociais, e um protocolo com a Bola TV para lançamento das provas e o seu resumo.”

Montado o projeto e compilado um portfólio, Nuno Lopes encetou uma ronda de contactos com resultados animadores: “Garantimos a entrada do Grupo Crédito Agrícola, o MEO, a Miramar Bodyboard Shop e a Pride Bodyboards. Entidades que nos permitem encarar este ano com otimismo e tiveram a generosidade e resiliência de enfrentar esta tempestade que se abateu sobre nós com a pandemia e levou a um atraso de 6 meses do arranque do circuito.”

E Nuno Lopes agora já pensa mais além: “O objetivo, agora, é ultrapassar os limites do público core do Bodyboard e mostrar a espetacularidade e entrega dos atletas para quadrantes que não o conhecem. Temos estratégias e estamos a montar os meios. Só precisamos da ajuda de todos os envolvidos, da FPS aos atletas. Se assim for, estou convicto que o sucesso está praticamente assegurado.”

Nuno Lopes acompanhou o filho, Rodrigo, desde a primeira hora no  Bodyboard e foi com ele que conheceu a maior parte dos atletas que correm o Circuito Nacional de Esperanças e Open e o espírito de solidariedade e “família” que diz ter encontrado no Bodyboard.

A esse propósito conta um episódio: “Há meia-dúzia de anos, numa incursão por Supertubos, cheguei à praia às 7h da manhã com o Rodrigo e dois dos seus amigos. Estava um frio de rachar as pedras da calçada e um deles só tinha um short. Nisto, estava um senhor a dar aulas e quando viu aquilo foi buscar um fato dele e emprestou-lho. No final da sessão, fui a casa dele entregar-lhe o fato. Esse senhor que não hesitou em emprestar um dos seus fatos chama-se Hélio Conde [conhecido no meio como ‘Laranja’ e campeão nacional de Dropknee em 2019]. A atitude dele marcou-me até hoje.” xxx


Por Carlos Mariano/FPS

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