O nome pode até soar estranho para muitos, mas isso apenas sucede porque a cultura que possuem do bodyboard, o desporto que amam acima de qualquer coisa, não é suficientemente vasta. Marcus Cal “Kung” é o pioneiro, o bodyboarder número 1, enfim, como os nossos irmãos além-mar referem, o pai do bodyboard brasileiro. Ele iniciou a sua caminhada em 1973 e desde então tem estado envolvido com a modalidade. Fundou a primeira associação mundial do desporto, a AMBERJ (Associação de Morey Boogie do Estado do Rio de Janeiro), regulamentou, competiu e implementou o bodyboard um pouco por todo o lado. O resultado desse trabalho culminou com a atribuição do prémio Personalidade Mundial no Pipe Challenge de 1988. Hoje em dia é shaper profissional e continua a viver intensamente o desporto.

Primeiro que tudo… de onde vem o nome Kung?
Na época passava no Brasil a série Kung Fu, com David Carradine como protagonista principal. O personagem também era careca e como eu praticava Tai Chi, não deu outra! (risos)

Considerado o pai do bodyboard brasileiro, como foi ser um dos pioneiros e desbravar as ondas nesses primeiros tempos?
Foi incrível! Lembro que só para ir até a Praia do Pepino (São Conrado), como era conhecida, era uma aventura. A vantagem é que fui o primeiro da galera a ter carro, então comecei a explorar os picos da orla carioca e a reunir mais e mais os bodyboarders que fui conhecendo. A primeira viagem para Saquarema, onde morei durante seis meses, foi irada. Recordo também da primeira ida para Arraial do Cabo… e por aí vai.

Quando e onde rolou o primeiro campeonato no Brasil?
O primeiro campeonato foi na praia de Piratininga, Niterói, em 1983.

Lembra quem venceu e quais os atletas de destaque na altura?
Lembro sim! Eu fiquei em segundo lugar. Lembro que fiquei revoltado, pois perdi a final para o meu grande amigo Mário Rutman. Mas ele mereceu! (risos)

Qual o evento que mais o marcou?
Foram dois. A minha primeira participação no Pipe Master, em 1985/86, no Havai, com os ídolos que costumava ver nas revistas. Eles estavam ali, ao vivo, no mar, ao meu lado, praticamente só para a gente! E depois, em 1987, o Bliss International, o primeiro evento internacional no Brasil, no Rio de Janeiro. Além de competir, organizei e consegui trazer as lendas do bodyboard como Mike Stewart, Ben Severson, Chris Ann Kim, Carol Phillips, David Cunniff, Keith Sasaki e Jay Reale. Foi memorável pelo evento e pelo encontro. Mary Lee, gerente de marketing da Morey Boogie, não acreditou no que viu no que diz respeito a estrutura e público na praia.

Por volta de 1988 recebeu o prémio de “personalidade mundial” no internacional de Pipe. Como foi ser alvo de tal distinção?
O prémio de personalidade mundial foi um marco importante na minha carreira, porque eu realmente dedicava-me para aprimorar a integração dos bodyboarders no Brasil e no exterior. Criei associações aqui e noutros países, além de organizar e regulamentar as regras e a formação dos juízes, algo inédito até então.

Quais foram as suas principais referências no desporto?
As principais referências foram Jack “The Ripper” Lindholm e Mike Stewart, com estilos inconfundíveis e inspiração plena. No Brasil, a primeira geração dos bodyboarders que competiram comigo e ajudaram-me a evoluir, como Cláudio Marques, Kiko Ebert e Kiko Pacheco. De seguida, os ainda jovens Xandinho e Paulo Esteves. E, por último, incontestavelmente, Guilherme Tâmega que desde pequeno se destacava e mostrava o caminho que o consagraria ao reconhecimento internacional.

Você foi um dos pioneiros do bodyboard, mas também formou associações, regulamentou o desporto, competiu, foi atleta profissional, trabalhou em marketing de empresas de surf, foi relações públicas, criou e desenvolveu marcas, e hoje em dia cumpre a função de shaper. Que análise faz deste seu percurso?
Sim, é verdade, passei por todas essas funções ao longo da minha carreira profissional no desporto. E sinto que poderei contribuir ainda mais na área de estruturação e organização para alçarmos voos mais altos. Voltei a atuar profissionalmente como advogado e pretendo fazer uma especialização em desportos radicais. A análise é que fiz o que tinha que ser feito e sinto-me com o dever cumprido até aqui. As minhas realizações e conquistas devem-se não só a mim, exclusivamente, mas a um grupo maravilhoso de pessoas que acreditaram, partilharam e discutiram as minhas ideias. Assim, melhoraram-me a mim e o bodyboard. Aprendi muito, sou grato e feliz pelo que conquistei. E só me arrependo de não ter apanhado mais ondas enquanto trabalhava para organizar os eventos e as associações! (risos)

A criação e divulgação da Equipa Speedo de Bodyboard, nos anos 80, é um dos seus trabalhos que mais recordo. Hoje em dia seria possível levar a cabo um projeto dessa envergadura?
Os anos 80 foram o auge do mercado brasileiro e também mundial! No Brasil, no momento, não seria possível. Não há mercado preparado para um projeto desses tão grande. Acho que a nível mundial só seria possível em alguns mercados de escala proporcional.

Atualmente você tem a sua própria marca, a Kung Bodyboard, e continua a formar novos atletas na Escola de Bodyboard Kung. Até que ponto essas duas funções se complementam e caminham de mãos dadas?
Sim, as duas atividades se complementam. A primeira é a produção de pranchas e acessórios, com as divisões de iniciantes e amadoras, que é feita por terceiros, com foco na distribuição para as lojas. E a linha profissional e customizada, minha atividade direta como shaper, com foco nas lojas especializadas, clientes e atletas. A Escola Kung de Bodyboard é um canal de vendas e serviço para o bodyboarder e/ou qualquer pessoa que queira iniciar a prática. Na escola há a convergência das duas atividades pois promovo o bodyboard, o treino e consequentemente o lifestyle do bodyboarders com a venda dos produtos da marca Kung.

A Phazer é uma das inovações que podemos associar à Kung Bodyboard. No futuro, por onde passa a evolução das pranchas de bodyboard?
A Phazer é um design incrível e vejo a reação dos atletas e clientes quando a usam pela primeira vez, pela velocidade e funcionalidade. Ultimamente tenho notado uma mudança no design dos fundos das pranchas, pois a maioria só usa canais. No surf também foi assim, até que Kelly Slater começou a usar as concaves. Também acompanho a indústria e as novidades de perto, além de procurar parcerias com fornecedores, shapers e fabricantes. Sem dúvida, os materiais são essenciais para a qualidade e a evolução das pranchas, mas há ainda muito que percorrer em termos de design com funcionalidade e foco no desempenho. Atualmente, vemos as marcas a serem produzidas por uma ou duas grandes fábricas, com distinção apenas nas logos e todo o dinheiro investido em marketing. Essa é a atual “ditadura” que vivemos mundialmente no mercado de pranchas, mas há também o trabalho de “guerrilha” que é representado pelos shapers ao redor do globo. É uma forma, do “core division”, de manter o esporte na sua essência. O surf, por exemplo, embora tenha passado por várias crises, jamais deixou de vender pranchas de shaper para surfista. No bodyboard, quando as megaempresas do segmento de brinquedos, como a Kransco e a Mattel, se desinteressaram pelo bodyboard como produto, caímos no abismo e só agora mostramos sinais de revitalização e reestruturação baseados no momento atual do mercado.

Decorridos 40 anos, como vê a evolução do bodyboard até hoje?
Em performance é incontestavelmente incrível! O desporto está bem representado nesse aspeto. Porém, no que toca a organização e estrutura está com “nota baixa”. Não há uma organização e estrutura que visualize o crescimento da modalidade e uma divulgação nos mesmos níveis do passado. Embora, como toda a atividade radical que passou por momentos de dificuldade como o skate, surf, ainda temos carência de recursos humanos e um projeto de médio-longo prazo a ser implantado que dê consistência e futuro a todos os envolvidos.

E como você se vê daqui a 10 anos?
Mais velho, com saúde para surfar, divulgar o esporte e a marca Kung!


Fotografia: Marcello Bravo & Silvia Barcellos.

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