Não gosto de localismo! Mas sou local! O que eu procuro dizer, na verdade, é que sou contra o localismo e em igual medida sou contra a falta de consideração pelo local.

Felizmente, nasci e vou vivendo perto de uma das melhores praias para se surfar, entre o Douro e o Minho. Tenho picos para mar grande, mar pequeno, onda deitada, onda cavada, comprida, tubular ou quebra coco. Há quem compare um destes picos com a Indonésia, um outro com uma versão da Praia Norte da Nazaré.

Desde menino, quando ainda nem imaginava ter algum dia dinheiro para comprar uma prancha, já percorria todas estas praias, quer sozinho quer em brincadeiras com os pares. Dei nomes a praias, aprendi o nome de muitas, vi dunas desaparecerem, animais mortos a darem à costa, barcos a encalhar e o mar a cuspir todo o mal que lhe fazemos. 

Já chamei à atenção de quem anda ou acampa sobre as dunas e envolvi-me em ações coletivas de limpeza. Já vi pessoas a morrerem afogadas. Por outro lado, já salvei muitas pessoas desta tragédia, como já me salvaram a mim. Já vi pessoas a serem amadas entre dunas e já lá também amei.

O mar não é de ninguém, ou melhor, é de todos e creio que não preciso aqui citar o artigo da constituição que nos esclarece sobre isto. Basta o exercício racional de que nem todos nós temos a sorte de ter uma praia surfável à porta de casa ou de vivermos na linha de costa.

Ninguém tem o direito de reclamar uma praia e as suas ondas como sendo sua(s), mas todos nós temos o dever de respeitar as regras de “surf” e de mostrar empatia por quem nelas vive e surfa diariamente. Temos, acima de tudo, que conhecer as regras para o free surf e estar bem conscientes que chegar ao pico é perceber quem já lá está a aguardar por uma onda. Nunca passar o seu lado da prioridade… Por outras palavras, a famigerada “voltinha”.

Cumprimentar e sorrir, fica sempre bem. 

Reparar quem tem a cara mais queimada pelo Sol, em pleno inverno, é uma forma de perceber quem nisto investe! Lembrar que estão a surfar naquela onda e naquela determinada praia, porque, muito provavelmente, foi descoberta por um dos “gajos” que está na água… e, graças ao “ripple effect”, a informação acabou por chegar até a ti. 

Surfar por lá uma vez e no dia seguinte trazer duas carrinhas cheias de amigos que tiram fotos para partilhar nas redes sociais não é o procedimento mais adequado. Também tenho as minhas e gosto de partilhar, pois, como um amigo meu disse, “Todos temos um ego.” Contudo, é importante lembrar que ao iniciarmos a nossa liberdade estamos a terminar com a do outro. 

Logo, editem as fotos não deixando pontos de referência para identificar, nem partilhem a localização. Há quem tenha investido muitas horas e muitas surfadas falhadas para entender como funciona o pico. Ao mostrarem insensibilidade por estes aspetos estão a desrespeitar o local e a praia que até poderia ser “secreta”.

Em suma, ser local é sobretudo zelar pela praia, ser um bom cícerone e manter um ambiente sadio e de respeito pelas regras comuns. É explicar os perigos da praia e estar atento ao surfista que caiu da sua prancha. Sempre que possível, mediar os conflitos dentro de água e demonstrar uma postura apaziguadora.

Enfim, é isto e muito mais. É um conjunto de memórias e vivências que nos leva a um sentimento de pertença muito próprio. É verdade, tenho a sorte de ter um local e gosto de ser local, mas também gosto de ser respeitado pelo local quando assumo o papel de visitante.


Texto: Hélder Aires

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