Em todos estes anos que tenho explorado as ilhas do arquipélago, focado quase sempre nas regiões de Sumatra e Sumbawa, sempre ouvia comentários e via fotos de algumas ondas em Java, fora da região de Grajagan. Relatos de alguns amigos australianos, que afirmavam terem apanhado ondas bem pesadas com pouco crowd; começaram a despertar a minha curiosidade em explorar melhor aquela ilha gigante.

Java, sendo uma das maiores ilhas do arquipélago indonésio, cheias de reefs que quebram ao longo da sua costa, tem vindo a ser explorada por  alguns bodyboarders profissionais e free surfers que eu conheço. Os mesmos publicavam imagens em ondas sem divulgar os spots. Após ter mapeado a região, o aeroporto no qual iria descer, a companhia aérea em que voaria e de como chegaria à vila onde iria ficar; chegou a hora de partir.

Desembarquei num pequeno aeroporto que me fez lembrar o de Bima (em Sumbawa) onde apanhei uma van que durante quatro horas percorreu o trajeto até ao local pretendido. Ao chegar, apesar de meio cansado da viagem devido ao péssimo estado das estradas, não deixei de preparar o equipamento para dar uma entrada ao final da tarde. Para minha deceção, ao chegar na frente do reef, a referida onda que eu tantas vezes vi em fotos, estava irreconhecível, apresentando, no máximo, 2 pés, formação errada e vento forte.

Voltei então para o bungalow e comecei a trabalhar o psicológico para  passar longos dias a pescar e a curtir as praias com a minha namorada. Quem quer explorar ondas que ainda não foram exploradas pela media, que felizmente ainda não as divulgou com intensidade, por vezes corre estes riscos. Apostamos a ficha e nem sempre ganhamos…

Neste mesmo dia fui para a cama cedo, novamente na esperança do mar reagir. Acordei às 5h da matina e fui conferir o spot. Estava vento terral e swell minúsculo, mas optei por dar uma entrada só para remar. Acabei por sair da água bem frustrado.

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Mais dois dias se passaram até dar conta da chegada de alguns bodyboarders pros. A região é nicho de Bodyboard na Indonésia, sendo que 70% do crowd é composto de bodyboarders. A formação das ondas, bem buraco na maré seca, ideal para a prática, é a principal razão. Nesse mesmo dia, à noite, arrumei uma net e vi pela previsão que um forte swell em breve encostaria na região. A chegada do skimboarder Brad Domke com a sua equipa de fillmagens e do surfista profissional local Rizal Tanjung, levaram-me a acreditar que a onda em breve iria dar sinal. Caso contrário, eles não teriam vindo e nem se tinham dado ao trabalho.

Nos dois dias seguintes o cenário mudou radicalmente, o mar subiu gradualmente, as direitas da baía apresentavam-se com um drop seco e buraco, onde a placa do lip se jogava bem longe na rasa bancada. Nos dias de auge do swell o crowd encolheu bastante, as ondas davam bafos em todos os sentidos e em várias sessões surfei com apenas mais quatro ou cinco cabeças durante horas.

Um dos melhores tubos que fiz no máximo da maré vazia, provavelmente um dos mais largos de todas as minhas temporadas na Indonésia. O “power” destes reefs javaneses proporcionaram ondas ideais para a prática de Bodyboard. Esta aventura, que resultou no meu trigésimo carimbo indonésio no passaporte, acabou por ser, sem dúvida, o presente de aniversário ideal.

Sampai jupah lagi, Indo.


Texto: Marcelo Gomes

Apoios: Maresia, Kpaloa, Centro de Artes Marciais Red House, Nativus Suplementos & The Pit Surfharware

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