Imagine um lugar inusitado para se praticar bodyboard. É provável que tenha pensado em algum ponto geográfico de ondas cristalinas e tubos perfeitos. Alguma vez já cogitou surfar na floresta? Mude o cenário. Vá da praia para o rio. Dos peixes e tubarões para as cobras e jacarés. Pororoca. Sim, talvez você já tenha ouvido essa palavra.

Por Letícia Parada / Kpaloa
Fotografia de Jeremy Dias

A Pororoca, que em tupi significa estrondar ou estourar, é um fenómeno natural resultante do encontro das correntes fluviais com as águas oceânicas. O tal “estrondo”, tão intenso que derruba árvores enormes e provoca mudanças no leito dos rios, atrai surfistas do mundo inteiro. Um desses atletas é a bodyboarder profissional Alexandra Ereiro “Xandinha”, do Team Kpaloa, que se aventura nas Pororocas desde 2007 e que em 2015 tentou bater um recorde na mesma. Recentemente ela foi atrás de mais uma Pororoca e acabou por nos contar como correu a aventura.

Você já surfou muitas vezes a Pororoca. Qual é a sensação?

Surfar a Pororoca é algo mágico. A onda da Pororoca é perfeita, diferente e inédita sempre. Imagina uma onda que vem do mar para dentro do rio e forma uma imensidão cabulosa? O barulho é assustador.

O barulho? Como assim?

Como o rio tem várias entradas, dependendo de onde você estiver é possível escutar o barulho da onda entrando lá fora. E as aves, as cotias, as cobras, os jacarés, insetos se retiram. E a gente que está ali assiste tudo isso. É muita adrenalina.

(…) vá com alguém que realmente tenha experiência em surfar a Pororoca

Falando em adrenalina, qual é a diferença entre surfar no mar e surfar a Pororoca?

O cenário em si gera uma adrenalina enorme. No mar a gente espera a ondulação, sabendo que peixes podem se aproximar, e de repente um tubarão também. Mas na Pororoca é diferente porque você vê os animais te alertando, do tipo “olha, vai vir a onda… ela já está vindo”. Eles estão aguardando isso acontecer.

Como você costuma se preparar para surfar a Pororoca?

Sempre me preparei fisicamente na academia, mas o preparo maior é o psicológico, sem dúvida. Até porque eu não tenho uma alta frequência de treino no mar, já que passo meses sem surfar porque aqui em Belém não tem praia. No litoral do Estado tem a praia do Atalaia que fica há 4 horas daqui, e a praia de Mosqueiro que é de água doce, mas só rola onda de agosto a novembro. Então, quando o calendário do circuito brasileiro é divulgado, eu costumo viajar 15 a 20 dias antes da competição para treinar.

O cenário em si gera uma adrenalina enorme

Independente de onde uma pessoa vá surfar, o planejamento é essencial para evitar determinadas situações. Pensando nisso, existe algum risco em surfar a Pororoca?

É isso mesmo. Você precisa ir com uma logística. Sem isso, você corre vários riscos, como aconteceu comigo uma vez: eu fui nadando até o local, e um jacaré pulou atrás de mim. Mas quando se tem uma equipe, uma logística, a gente não vai pela margem. Vamos pelo rio adentro, em uma “banana”, ou em uma lancha. O meu conselho para qualquer surfista que nunca foi à Pororoca é: vá com alguém que realmente tenha experiência e seja especialista em surfar a Pororoca.

Você lembra de ter passado alguma situação difícil que causou medo na Pororoca?

Sim, agora em fevereiro aconteceu esse momento com o jacaré no rio Mearim, no Maranhão. Eu cheguei lá um dia antes de toda a logística, ou seja, antes do jet ski, antes da banana. Fomos surfar cedinho no dia seguinte. Eu, cinco amigos e algumas pessoas do local, fomos andando pela margem e depois tivemos que entrar no rio que já estava sendo sugado, estava puxando muito. Quando a gente pulou no rio, escutámos um barulho bem atrás de nós. Vimos um rabo. Era um jacaré. Ele estava camuflado, coberto de lama e não tínhamos visto antes. Eu entrei em desespero pela primeira vez na minha vida depois de 10 anos surfando as Pororocas do Brasil.

Eu tenho uma aproximação maior com a Pororoca do que com o mar

Quando estamos entre surfistas e falamos em Pororoca logo vem a curiosidade sobre a distância e o tempo. Qual foi a Pororoca mais longa que você já surfou? Quanto tempo você surfou a mesma onda?

Meu tempo máximo foi de 15 minutos na Pororoca do rio Mearim, sem nenhuma intervenção de jet ski. Em 2013, surfei sozinha uma Pororoca maior no Rio Araguari durante 7 minutos.

De modo geral, o que a Pororoca te ensinou?

Muita coisa. Me deu força, sabe? Eu sempre tive respeito pela natureza, sempre respeitei o mar. Mas a força, a energia maior, a coragem, vieram da Pororoca, desse fenómeno. E apesar de ser uma atleta competidora, às vezes eu sinto medo do mar. Tenho mais medo do mar do que da Pororoca. Eu tenho uma aproximação maior com a Pororoca do que com o mar. xxx

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