Os países tropicais são, para mim, o mais próximo do paraíso na Terra. Calor, água quente, praias desertas e natureza em estado selvagem. A que se juntarmos offshore o dia todo, pouco crowd e ondas perfeitas, estamos provavelmente a descrever uma das muitas praias da Nicarágua. 

Infelizmente, neste momento [N.R.: no momento em que se realizou a viagem] a Nicarágua tem um senão, a revolta do povo perante o regime quase ditatorial do Presidente Daniel Ortéga levou a uma resposta violenta por parte do governo levando à morte de centenas de pessoas nos últimos meses.

Tudo começou por volta de março em conversa com o meu amigo e bodyboarder, Hugo Santos, em que decidimos que iríamos viajar juntos neste verão. Fomos sugerindo alguns países e discutindo alguns prós e contras. Numa sessão com o meu osteopata Tiago Boto, ele revelou-me a vontade de fazer uma surf trip na Nicarágua, o que disputou alguma curiosidade em mim. Após alguma pesquisa e conversa com amigos que já lá tinham estado, verifiquei que era um destino muito pouco explorado por bodyboarders e com muito potencial. 

“(…) cometemos um erro básico ao decidirmos sair do aeroporto para passar uma noite num hotel próximo”

Em meados de abril, comprámos a passagem aérea para Manágua (capital do país) e uma semana depois deu-se o início das manifestações e de toda a violência. O país parou durante o mês de maio e junho e mais de 400 pessoas morreram nos confrontos. Perante as notícias que nos iam chegando, pensámos seriamente em desistir da viagem e rumar a outro destino. Felizmente, nas semanas que antecederam a nossa partida as coisas acalmaram e surgiu a oportunidade de conhecer este país, com algum risco, é verdade, mas sem crowd.

No fim de julho lá partimos, eu e o Hugo, um pouco ansiosos com a situação do país, mas com muita vontade de partir à descoberta. Entretanto, já se encontrava por lá o fotógrafo Marco Gonçalves que, por questões profissionais, só esteve connosco durante as duas primeiras semanas tendo de partir mais cedo. Uma das escalas da viagem foi no Panamá onde ocorreu uma alteração no plano da viagem levando-nos a passar uma noite na sua capital. Aqui cometemos um erro básico ao decidirmos sair do aeroporto para passar uma noite num hotel próximo… 

No dia seguinte, totalmente descansados, fomos fazer o check-in para o último troço da viagem para chegar à Nicarágua, mas pediram-nos o boletim de vacinas com a vacina da febre amarela, isto porque visitamos o Panamá e este é um país endémico. Neste momento o coração começou a bater, pois eu não tinha o tempo de incubação da vacina suficiente e o meu amigo nem sequer tinha a vacina. 

Apesar de muito pedir que nos deixassem ir, não nos deixaram entrar no último voo e as malas já estavam despachadas para a Nicarágua. Uma das soluções seria, no meu caso, esperar 6 dias no Panamá e o Hugo tomar a vacina lá e esperar 10 dias. Esta solução era impensável, então pensámos na melhor alternativa. Acabámos por decidir mudar o voo para a Costa Rica, onde não é preciso vacinas e entrar por terra na Nicarágua. Com sorte passaríamos no controlo fronteiriço sem que suspeitassem que não tínhamos as vacinas… 

“(…) enquanto esperávamos a entrada de ondas no line up, passou um crocodilo a cerca de 20 metros”

E assim foi, conseguimos mudar o voo para a Costa Rica sem custos adicionais, mas só tivemos vaga num voo no fim do dia (mais 7/8 horas de espera). Ainda tentámos que as malas de porão saíssem no Panamá, mas não conseguimos, tivemos somente a garantia da responsável da companhia aérea a dizer que colocaria as nossas malas no voo para a Costa Rica.

Chegados à Costa Rica e já com transfer marcado para a manhã seguinte, é-nos informado que as malas ficaram no Panamá. A alternativa passava por esperar as malas na Costa Rica (dois dias) ou ir até ao aeroporto de Manágua buscar as malas sem grandes garantias de estas lá estarem. Já com o transfer pago e marcado para a Nicarágua, vimo-nos perante uma decisão difícil. Acabámos por decidir ir à aventura e atravessar os dois países até Manágua. E assim foi, na manhã seguinte já estávamos a caminho da Nicarágua por terra, depois de 8 horas e de atravessar a fronteira (a medo, mas onde conseguimos o visto de entrada) chegámos ao aeroporto de Manágua. Fomos reclamar as nossas malas, mas só a mala da roupa tinha chegado, faltava a das pranchas. Ficámos a saber que ainda estava no Panamá. Perante esta notícia, depois de garantirmos que nos enviavam as malas para casa, rumámos ao nosso destino final, San Juan del Sur, onde já nos esperava o fotógrafo. Finalmente apreciámos algum descanso e uma refeição. 

San Juan del Sur foi de sonho… O vento soprava offshore todo o dia, bastava a maré estar boa e ondas começavam a rolar, muitas vezes sozinhas, porque o crowd é inexistente, tirando alguns locais surfámos muitas vezes sozinhos. Na cidade quase não havia turistas.

Na melhor onda de San Juan del Sur, um wedge perfeito para bodyboard, conhecemos o Brent Woods, um americano bodyboarder/fotógrafo que vivia numa casa que construiu muito perto do pico. Recebeu-nos muito bem, pois não é normal ver grupos de bodyboarders por aqueles lados. Deu-nos várias dicas de swell e spots, acabando mesmo por nos revelar uma onda secret que só surfámos no final da trip.

Passada a semana inicial, onde se juntou o Tiago Boto ao grupo, iniciámos uma nova fase da viagem, rumamos à Hacienda Iguana para surfar a mais famosa praia da Nicarágua, Praia Colorado. Passámos uma semana a surfar ondas médias similares a Supertubos, mas já com algum crowd. A melhor parte eram as condições de luxo que esta quinta totalmente americanizada oferecia (restaurantes, piscinas, ar condicionado e segurança q.b.).

Na semana seguinte fomos até ao norte com o objetivo de surfar The Boom. Ficámos instalados num surf camp em cima da praia em frente a esta famosa onda. A onda em si revelou-se perfeita para bodyboard: triângulos com tubos secos e rampas muito divertidas. De referir que foi a água mais quente que alguma vez surfei. 

Existem poucos sítios no mundo em que está offshore 24 horas por dia”

Nesta altura, o Marco já tinha partido para Portugal, pelo que não temos fotos desta onda. Por outro lado, nesta semana chegou a última parte do grupo, os locais de Peniche, João Martins e Armindo Boto. No norte, o vento já não é offshore o dia todo, pelo que os dias eram passados a relaxar e na expetativa que chovesse para que o vento virasse offshore novamente. Numa dessas tardes aproveitámos para sair do surf camp e conhecer um dos maiores vulcões da Nicarágua. Foi uma experiência brutal e ao mesmo tempo um pouco assustadora, pois, no momento que atingimos o topo, o vulcão decidiu libertar uma nuvem gigante de fumo e areia. No fim tudo correu bem.

Com um novo swell a entrar, decidimos explorar o secret que o americano nos revelou. Ele alinhou connosco e arrancámos. Chegados à onda ficamos maravilhados – uma esquerda comprida de reef super tubular e sem ninguém. Passamos vários dias a aumentar a quilometragem de tubos. Numa dessas sessões, enquanto esperávamos a entrada de ondas no line up, passou um crocodilo a cerca de 20 metros que, pelos meus cálculos, tinha cerca de 2 metros. Saímos imediatamente de água e o pico ficou sozinho a dar altas ondas. 

Com o final do swell chegou também o fim da nossa viagem. Nicarágua foi dos destinos que mais me surpreendeu, nunca esperei ver tanta qualidade de ondas neste país. De frisar que existem poucos sítios no mundo em que está offshore 24 horas por dia. Como consequência da situação política do país, tive a sorte de poder surfar altas ondas sem ninguém, mas dada á abundância de ondas, mesmo em situações normais de crowd, este é um sítio que vale a pena visitar.    


Texto: Daniel Fonseca | Fotografia: Marco Gonçalves & Brent Woods

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